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Viagem ao Norte da Austrália

Dia  16

Innot Hot Springs - Undara Lava Tubes

112 Km 

O dia raiou espetacular e o contraste da Savana com o céu azul e a terra vermelha estava muito bonito. Antes do café passamos cerca de 1 hora nas piscinas naturais. A mais quente tem 44 graus, e as outras 38, 36, e 32. Ficamos na de 38 porque a de 44 estava muito quente para nós. Chegaram outras cinco pessoas, todas de Adelaide, e conversamos por cerca de 20 minutos para depois retornarmos para a Van. A Celia foi entrevistar um casal que há 3 anos e meio está na estrada. Enquanto isso eu preparei duas bacias de cereal com banana e suco de laranja para o café da manhã. Na noite passada fizemos reserva para o tour das 13:00 horas nos tubos de lava de Undara, pois nos disseram que eles só aceitam reservas com 24 horas de antecedência. Como eram só 112 quilômetros até o lugar, ficamos fazendo hora e batendo papo. O casal nos disse que se não saíssemos logo, não íamos chegar à tempo. Não entendi no momento, pois ainda eram 10:00 da manhã e em 3 horas eu faria uns 250 Km, não 112. Será que eles queriam se ver livres da gente? 

No início tudo estava bem com a estrada um tapete, e a paisagem espetacular. O asfalto era meio vermelho, e quase não haviam veículos na estrada. Estava adorando aquela sensação de viajar no Outback. A temperatura era de 24 graus, e tudo estava perfeito demais. Ainda por cima estávamos indo conhecer os famosos tubos de lava de Undara. Esses tubos foram formados à cerca de 200.000 anos durante uma violenta erupção vulcânica, e são considerados os maiores do mundo. Tubos de lava são formados quando a lava despejada por um Vulcão viaja ladeira abaixo percorrendo longas distâncias. Quando a lava entra em contato com o ar, a superfície solidifica, mas dentro continua líquida e fluida. É como se fosse uma mangueira  de água aberta, e de repente corta-se a água. Depois que a erupção terminou, o tubo esvaziou e ficou só um túnel vazio. O de Undara chega a ter mais de 100 Km de comprimento e quase 20 metros de diâmetro em alguns pontos. Muitas partes já desabaram ou foram erodidas, mas sobraram muitos tubos que podem ser visitados.

Como o velho ditado..."Tudo o que é bom dura pouco", foi o que aconteceu. Em pouco tempo o céu começou a nublar, e a estrada virou uma única trilha de asfalto. Se um carro viesse da direção oposta, ambos teriam que colocar uma roda na lama. Pensei que fosse um trecho em obras, mas a coisa ficou assim pelos próximos 80 Km. A velocidade caiu para 60 Km/h, pois fiquei com medo de quebrar o carro no meio do nada. Agora tínhamos entendido porque os nossos amigos do Caravan Park falaram para saírmos mais cedo. Resolvi pisar fundo de forma que o carro passasse voando por cima dos buracos, e voilá, deu certo. Voltamos aos 110 Km/h mas tínhamos que diminuir nas curvas ou quando vinha algum carro do lado oposto. Nunca vi 112 Km levarem tanto tempo para serem percorridos, e olha que não estava chovendo.

Chegamos no trevo para Undara, e entramos no acesso de 19 Km que nos levaria ao Caravan Park do local. Ao final do primeiro quilômetro, o que restava de asfalto acabou. Os primeiros 4 quilômetros foram tranquilos, mas depois a estrada foi deteriorando, até se tornar um mar de ondas, com a Van parecendo uma britadeira. Tive que reduzir para 20 Km/h, e algumas vezes até mesmo parar por causa de alguns buracos profundos. Nesse rítimo corríamos sério risco de perder a hora do tour, mas a sorte virou pro nosso lado. Um micro ônibus da companhia que opera o tour nos ultrapassou, e isso foi nossa salvação. Passei à seguí-lo de perto, mesmo comendo poeira, pois o cara parecia conhecer cada palmo de pista. O ônibus parecia uma cobra, indo da direita para a esquerda, e nós atrás. Acelerava quando tinha um trecho bom e reduzia na buraqueira. Minha adrenalina estava a mil por seguí-lo tão de perto, e vi que ele não tirava o olho de nós através do retrovisor. Algumas vezes ele beliscava várias vezes o freio para nos alertar que vinha coisa pela frente. Com certeza ele sabia que estavamos atrasados para o tour, e estava nos dando uma força. Chegamos 30 minutos antes do tour sair, e fomos fazer o check-in no Caravan Park. Deixamos o carro já no "powered site" que dormiríamos, e em seguida pegamos as cameras e os vouchers, e seguimos apressados para o ponto de encontro do tour.

Fomos levados até a entrada dos tubos dentro de outro micro ônibus da companhia, com outros 13 turistas. O motorista que era o guía, não parava de falar besteira, e começou com aquelas baboseiras que detesto, do tipo, "De onde voce é ?". "Quem quer contar uma piada?".  "Se apresentem uns aos outros". Eu virei a cara para a janela e vi um Canguru cinza escuro bem grande que nunca tinha visto antes, mas não deu tempo de fotografa-lo, pois o motorista nem percebeu o Canguru, e não reduziu a velocidade. O bicho talvez tivesse uns 2 metros de altura e era bem forte e encorpado, com certeza um macho. Chegamos na entrada dos tubos e o guía deu algumas explicações sobre os tipos de rochas do lugar, e em seguida descemos a trilha de acesso para caverna. O cara era do tipo metido a engraçado, daqueles que faz graça com cara fechada, só que não havia a menor graça nas coisas que ele dizia, e as poucas pessoas que riam, provavelmente o faziam por educação. O sujeito ainda por cima falava para dentro, e as explicações que ele dava não eram detalhadas e muito menos acadêmicas. Eu fiz várias perguntas principalmente sobre a descoberta de 35 novas espécies de invertebrados que foram encontradas dentro dos tubos. "What Invertebrates do you mean?...Ele retrucou". Me deu vontade de responder que se ele não sabia o que eram invertebrados, eu estava falando com um.

Esses Invertebrados jamais foram vistos antes em qualquer outra caverna ou lugar no mundo, e vivem basicamente de gás carbônico. A umidade e fungos dentro da caverna cria uma concentração de CO2 duzentas vezes maior que na superfície, e é extremamente tóxica para a maioria das espécies, inclusive o homem. Por causa disso, não se pode entrar muito fundo nos tubos, e somente pesquisadores com oxigênio conseguiram ir mais além. Mesmo assim, mas de 90% da extensão total dos tubos ainda não foi explorada. Os invertebrados dalí e alguns vegetais alimentam-se exclusivamente de fezes de morcego, fungos, e CO2, o que intrigou a comunidade científica internacional. As infiltrações por todo o teto da caverna fazem com que literalmente chova lá dentro, com umidade de 98%, e temperatura  de 22 graus. O ar é extremamente pesado, abafado, e fétido. Definitivamente um lugar não muito prazeiroso de se ficar.

Eu nunca vi um guía tão ruim na minha vida. O sujeito falava e bocejava, e bocejava alto. Parecia que a qualquer momento ia deitar no chão e dormir. Cheguei a pensar que ele estivesse seriamente afetado por CO2. Ainda por cima mantinha a lanterna apontada para baixo ou desligada. Ninguém avisou sobre trazer lanterna, e sem lanterna é completamente breu lá dentro. Só o guía tinha uma. De vez em quando ele mostrava morcegos no teto, ou desenhos nas paredes, sempre de forma rápida. Quando minha retina se acostumava com a luz e meus olhos íam focar, pronto, ele já tinha apontado a lanterna para outra direção. Quase pulei no pescoço dele quando apontou para umas pedras e começou com aquela palhaçada de,,, "Isso é um urso ou a cabeça de um cachorro?". Isso é sua mãe, me deu vontade de falar. Para que eu não cometesse um tubicídio com o guía, tive que me conter. Em seguida o guía nos levou para outro tubo diferente, e finalmente ele deu algumas explicações sobre uma varas de metal que iam da base ao teto do tubo. Algums estavam retas, outras envergadas. Essas varas eram para medir a deformação do tubo. Se estivessem  muito envergadas, é porque o teto cedeu e pode desmoronar. Passei a bombardeá-lo com perguntas, e ele respondeu algumas, mas depois se voltou para o grupo e disse..." Aqueles que estiverem interessados em detalhes técnicos, temos um livro feito por uma vulcanóloga que está à venda na recepção por A$ 39. Eu só não mandei-o ao devido lugar, porque minha raiva foi tamanha, que me afastei do grupo e passei a usar o flash da minha camera digital como lanterna, e com sorte saíria uma foto prestável.. Alguns dados que escrevi aqui foram pesquisados na Internet, porque senão eu não saberia nada.

Saimos dos tubos e chovia, e isso somado a raiva que eu estava do guía acabou com o encanto do lugar. Estava pensando em fazer um passeio mais completo no dia seguinte, pois eles tem 3 passeios diferentes, O que fizemos custa A$ 40 para escutar por duas horas alguém falando besteira, e inclui visita à dois tubos. O outro tour dura meio dia, e o outro dura um dia inteiro,  onde visita-se o vulcão que gerou os tubos, e entra-se em tubos diferentes. Custa A$145 por cabeça. De qualquer forma decidimos ir embora no dia seguinte, e passamos o restante da tarde no Caravan Park. Fomos ver uns Cangurus marrons que estavam nas imediações da Van, e depois armamos o toldinho azul, pois tinha começado a garoar. Jantamos ravioli de espinafre ao molho branco, e fomos dormir cedo. Lá pelas 11 da noite, acordei com o toldo batendo no carro, e tive que ir lá fora ajeitá-lo. Chovia e ventava forte, e o reparo durou uns 5 minutos. Voltei ensopado para a cama, e depois de me enchugar bem, voltei para debaixo do cobertor. Mais uma vez, tudo o que desejávamos era o Sol, um dia de Sol, com o guía sentado dentro da cratera do vulcão um minuto antes da explosão.

Nota: Esses tubos fazem parte de um Parque Nacional, mas ficam em terras de uma família que criava gado lá desde 1840. Eles entraram num acordo com o departamento de parques nacionais, no qual cederiam as terras mas seriam os únicos autorizados à explorar o turismo nos tubos, para com isso proteger desavisados de morrer por causa do CO2. Construíram uma excelente infra estrutura com muitas facilidades, incluindo bomba de gasolina, acomodações de luxo em vagões de trem, e muitas coisas mais. Por isso não é possível explorar os tubos por conta própria. Tem-se que  pagar, e ir com um guía deles num dos tours que oferecem.

Nosso fantástico Guia

É um Cachorro? É um urso?

Cangurua com filhote na bolsa Acomodações em vagões de trem

O bar também fica num vagão E o restaurante num outro.

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