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Viagem ao Norte da Austrália

Dia  32

De Town of 1770 até a Barreira de Corais

74 milhas náuticas ida e volta

Essa era a segunda vez que iríamos até a Barreira de Corais à partir da Town of 1770. Na primeira fomos num conjunto de recifes chamado Fitzroy Reef e adoramos. Dessa vez iriamos numa ilha atol, chamada Lady Musgrave. O barco era um Catamarã bem maior do que fomos para o Fitzroy Reef e o preço também. De qualquer maneira um primo nosso já havia ido e gostou muito e nos recomendou essa ilha.

O barco saia cedo e as 8 da manhã já de café tomado, a van da companhia veio nos buscar. Entramos na fila de embarque e recebemos as boas vindas da tripulação. Logo que o barco partiu, tivemos um visual bonito de 1770, e o barco foi contornando bancos de areia ao longo do raso canal. Passa-se a saída da barra e entra-se em alto mar. A primeira coisa que a tribulação do barco fez foi distribuir sacos de vômito para a viagem de 1 hora e meia até o atol. O barco é rápido e navega em torno de 20 nós. Com o mar e o vento contra, cinco minutos depois já tinha uma gordinha botando o breakfast pra fora. Em seguida outra, e depois outra, e depois a criançada toda alegremente vomitava. Escutei muitas pessoas chamando um tal de "Rauuul", que até hoje não sei quem é, mas o sujeito certamente é bem conhecido, pois todos o chamavam pelo nome.  A Celia estava com aquela cara de peido, de quem está prestes a vomitar, mas estava se contendo, ou melhor, se contorcendo. Até que levantou da poltrona e saiu como uma bala para a borda do barco. Não deu tempo de chegar. A chuveirada saiu voando pelo convés até a popa, e atingiu uma turista estrangeira na cara. Imediatamente a tripulação veio com toalhas e um balde d'agua para a pobre vítima do ovo mexido da Celia. De presente, deram 10 sacos de vômito e uma pilha de toalhas de papel para a minha adorada esposa.  Nunca na minha vida vi a Celia correr tanto risco de vida. O olhar da turista que levou o banho era do tipo..."te pego na ilha, pode apostar".

Eu não enjoei, principalmente porque fui a maior parte do tempo em pé olhando para o horizonte em busca de uma baleia assassina ou um cardume de risonhos golfinhos. Naquele dia o vento estava forte e as ondas eram grandes. A tripulação não parava de trocar saquinhos, e acho que só uns 20 passageiros não enjoaram, além do Capitão e a tripulação. Chegamos perto da Ilha e entramos num canal entre os corais. O balanço parou, e muita gente agradeceu a Deus, inclusive eu, que já estava com uma leve dor de cabeça devido a fumaça de óleo diesel e ao suave aroma de ovos com bacon no convés do barco. O visual era lindo, daqueles de sonhos e de filme, e tudo aquilo num Parque Marinho preservado. É possível (e nós vamos um dia) acampar na ilha por até 3 semanas. Para isso, deve-se retirar uma permissão de A$ 7 por cada noite, e ser auto-suficiente em agua e alimento. O barco leva e busca pelo dobro do preço, o que nos faz sempre adiar o projeto por tempo indeterminado. Em caso de emergência há um rádio em cima do banheiro da ilha, onde outrora havia um hotel. O hotel foi desativado quando começou a Segunda Guerra, e a genial esposa do então Governador de Queensland, a senhora Lady Musgrave, teve a brilhante idéia de botar cabras na ilha, no caso de um barco Australiano ser afundado, os náufragos encontrariam comida na ilha. Antes mesmo da guerra acabar, as cabras já tinham devorado a ilha inteira, e estavam com tanta fome que se um náufrago chegasse, ele é que seria comido. Finalmente a ruminante Lady, resolveu botar o cabra prá fora, digo, as cabras para fora da ilha.

A primeira coisa que fizemos foi procurar o Capitão do barco e pedir permissão para usarmos a pipa para tirar fotos aéreas. Ele não entendeu a pergunta, e eu tive que explicar novamente, dessa vez mostrando o equipamento e explicando em detalhes. Ele não só deu permissão, como ficou entusiasmado com a idéia, e após fazer as tarefas que tinha que fazer veio se juntar a nós. O vento estava perfeito, sem variar nem um nó. A pipa estava chapada no céu como se alguém tivesse pregado ela lá. Isso era sinal de fotos focadas e com ótimo enquadramento. No esquema do barco, eles dividem os turistas em grupos e cada qual é levado para uma atividade diferente incluída no passeio e depois trocam num verdadeiro swing turístico. Por exemplo, um grupo vai para a ilha, enquanto o outro vai andar no barco de fundo de vidro, e outro no semi-submersível.

Um grupo estava saindo para um tour na ilha, e resolvemos ir também. A ilha literalmente fede a merda de passarinho, pois a quantidade de "Noddy Tern", uma espécie de gaivota pequena preta com a parte de cima branca, faz ninhos em toda a parte. Elas são migratórias, mas voltam na ilha a cada ano para ficar um bom tempo literalmente cagando goma. Após a Guerra, essa ilha deu muita grana para a Austrália por ser exatamente uma grande bosta. Uma empresa da Australia exportava "Guano" (ou cocô de gaivota) para servir de fertilizante no Japão. Em outras palavras, os Japoneses mandavam dinheiro para a Austrália e a Austrália merda para eles. Só que a demanda se tornou maior do que a merda produzida, e a empresa descobriu outra ilha mais bosta ainda no Pacífico, e para lá se mudou. Ainda passeando na ilha, com dois dedos enfiados no nariz e sem perder a gostosa guia de vista, vimos um grande rastro de tartaruga marinha, e a delícia explicou que os filhotes quase todos morrem por causa dos tubarões logo na beira da praia. Ela nos apontou alguns tubarões, de talvez 30 centímetros de comprimento, mas mesmo grandes, essa espécie chamada "Reef Shark" dificilmente ataca o homem (somente mulheres e crianças).

Na volta da Ilha para o flutuante onde o barco fica encostado, fazia bastante calor, e resolvemos pegar o material de mergulho que levamos, e ir pra dentro d'agua (eles fornecem grátis caso você não tenha). A água era expetacular, morna e transparente de cor turquesa. O fundo de corais era bonito, talvez em outras áreas certamente melhor, pois ali todos os turistas tem que ficar numa parte limitada por bóias, e como todo dia vai gente lá, vimos muitos corais quebrados. No final da parte delimitada vimos os melhores e mais coloridos. Os corais de Bowen eram mais bonitos, e os do Fitzroy Reef muito mais ainda. Ficamos um bom tempo olhando o fundo e fui brincar com um polvo. Ele tinha mais ou menos 1 quilo, e eu balançava o dedo e ele saia da toca para me ver. Pensei em agarra-lo na marra e leva-lo para o jantar, pois já peguei muitos polvos, e sei cozinha-los de forma que fiquem bem macios e deliciosos. Claro que me lembrei que estávamos num Parque Marinho e o capitão do barco seria o primeiro a me multar. Deixei o bicho quieto apesar da baba que escorria da minha boca. Vimos debaixo da plataforma uma garoupa do tamanho de um cão pastor alemão, e que atende pelo nome de George. Basta você chamar o nome George, com sardinhas na mão que ele vem. George virou mascote da tripulação, e quando jogam as sardinhas outros peixões e peixinhos vem participar do banquete, mas Georjão é mais rápido e pega tudo prá ele. George! Desde quando isso é nome de Garoupa ?

Andamos também no barco de fundo de vidro, e no barco semi submersível  A diferença entre um e outro é que no de fundo de vidro você olha para baixo, enquando no outro olha-se para os lados através de  escotilhas. Algumas partes do passeio foram muito boas e vimos bonitos corais, mas o timoneiro e guia do passeio de repente virava o barco para mostrar uma tartaruga minúscula enquanto víamos os corais. Me lembrei de Undara, mas esse sujeito era bem melhor, não bocejava, e queria agradar. Foi desculpado.  Quando voltamos para plataforma o almoço, incluido no preço já estava servido. Era no estilo bandeijão e cada qual pegava um prato entrava numa fila e se servia. Tinha bife, camarão, galinha, saladas de varios tipos, arroz,  macarrão, legumes, frutas e muitas coisas mais, incluindo sobremesa. Provei um camarão, e não era do bom, assim fiquei mesmo só na salada e nas frutas, com um café preto aguado para arrematar. Já a Celia provou um pouquinho de cada coisa, e depois veio com o veredito: a salada foi eleita o prato do dia.

Depois do almoço, fizemos outra sessão de fotos de pipa para acelerar a digestão e fomos mergulhar de novo. Por volta das 3 horas da tarde o barco retornou para o continente. A volta foi tranquilíssima, e ninguém vomitou nem salada nem nada. O barco vinha a favor do mar e do vento e quase não jogava. Ah, já ia esquecendo.. Nos inscrevemos para pescar, pois eles te levam num lugar que é permitido e fornecem todo o material incluindo iscas. Mas por causa do mar forte, o capitão cancelou a pescaria, o que me deixou muito "P" da vida, pois estávamos contando com o peixe para o jantar. Quando fomos ao Fitzroy Reef, em 10 minutos tínhamos batido a cota de peixes. Pegamos duas "Coral Trout", uma espécie de badejo vermelho de 3 quilos cada, e foi um dos peixes mais saborosos que comemos na vida. Chegamos às 4:30 no cais e após o banho, fomos tentar comprar um peixe. Só achamos peixe congelado no supermercado e paramos então no único restaurante de ontem e pedimos um prato de peixe que veio com... salada. Já sentindo que nasci para fazer fotossíntese, e com o fim da viagem se aproximando, resolvemos abrir a carteira um pouco  mais e pedir uma garrafa de vinho. Como se diz na Austrália:" indulge yourself", que na minha tradução quer dizer: "abuse do cartão de crédito sem perdão".  Amanhã é dia de estrada novamente.

A saída da barra de 1770

Senhores e senhoras, bemvindos à bordo e não vomitem nos outros turistas por favor.

George, o garoupo comilão

Na Ilha, sem a Brooke Shields

Querida, tem um monstro aqui!

A lagoa azul e o matinho

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