 |
| Viajando
a Austrália: |
|
| Brisbane
à Cairns |
|
| "Primeira
Semana" |
|
Os
Preparativos
da
Viagem
A
inspiração para a viagem
surgiu porque nós tínhamos comprado umas coisas para melhorar o
conforto em nossa Campervan e queríamos testá-las
numa viagem de 30 dias pela Austrália. Também
queríamos testar como seria editar um website de
1500 páginas como esse ao longo do caminho. Em
outras palavras, experimentar como seria trabalhar
enquanto se viaja ou vice versa. Por
ser Inverno na Austrália, a viagem não poderia ser para
outra região senão o Nordeste,
área bastante tropical e cheia
de coisas interessantes para ver e fazer.
O melhor de tudo é que nessa época do ano não
tem as mortais águas-vivas que impedem um simples
banho de mar entre Novembro e Maio.
A
primeira coisa que
iríamos testar seria nosso Laptop, e ao mesmo tempo ver o progresso
que a "Telstra",
tem feito em relação as conexões Wireless e
Banda larga em lugares remotos da Austrália. A segunda novidade seria
um bote Inflável de 3 metros com motor de 5 hp,
que poderíamos carregar em nossa Van, e
montá-lo em
qualquer praia pelo caminho. O terceiro
melhoramento foi um
toldo de plástico de 6X5 metros, que seria montado
por sobre o carro, e assim nos proteger
do sol ou chuva. A Celia achava que ele seria
inútil e difícil de montar, e acabaria sem
uso. A última novidade foi um
freezer de 80 litros para substituir uma
geladeira de isopor, e assim economizar A$ 6 de
gelo por dia. A escolha entre um freezer ou uma
geladeira foi muito difícil. Por um lado,
tínhamos medo do freezer congelar tudo
dentro, pelo outro, a geladeira
poderia não gelar direito sob o calor tropical. Optamos pelo freezer,
decisão
muito acertada conforme vocês verão ao longo do
relato.
Para
arrumar espaço
para todo
esse material, tivemos que desmontar toda a
configuração antiga, que era basicamente uma cama de
casal com armários em baixo, e refazer tudo para
acomodar, barco, motor, âncora, tanque de
gasolina, além do toldo e ferragens. Além disso
tinha o freezer, novos armários, e uma privada
portátil para casos inusitados. O
barco e o motor ficariam em baixo da cama de
forma que pudéssemos tirá-los facilmente pela
porta traseira. A privada também ficou debaixo da cama
só que do lado oposto. O armário novo colocamos do
lado direito, logo atrás do motorista, com
gaveteiros para comida e material de higiene, e
uma
parte para roupas. O armário foi pré-montado à partir de
módulos vendidos prontos, e foram parafusados juntos para depois serem instalados
em definitivo no local. O que deu mais trabalho foi uma caixa de compensado para o Freezer, e
parafusá-la devidamente no
chassis da Van. Dessa forma, em caso de freiada brusca,
o Freezer não iria parar no banco da frente ao
nosso lado. A transformação completa durou uma
semana e ficou boa e prática.
Antes
da saída
ainda tivemos tempo de levar a Van num mecânico para uma
checada final. Após A$ 200 em troca de peças, o carro estava
pronto para
subir da Gold Coast até o Cape
Tribulation,
onde a estrada literalmente acaba. A previsão era
de rodar um total de 4000 Km ida e volta, e passar
em torno de 30 dias viajando morando dentro
da Van. Nós havíamos
feito essa viagem há 7 anos atrás com os
filhos pequenos, e não nos lembrávamos muito de
vários lugares. Tão pouco
tínhamos ido ao Cape Tribulation e
visitado o Daintree National Park, que é mais
antiga e diversa floresta do mundo. Essa seria uma boa chance de recordar e
fazer certas aventuras e explorações que não
fazemos na época. Nossa Van é uma Ford Econovan
Maxi, um metro mais longa que as Vans comuns.
 |
| A
cama de casal tem 1.85 m. de comprimento e ocupa toda
a largura da Van. A privada plástica de dois
compartimentos, fica embaixo da cama é puxada para
fora para uma eventual mijada noturna. |
|

|
| O
toldão cobre todo o carro como uma garagem, e quando
saímos para passeios, deixamos o circo armado no
local. |
|
Da Sunshine Coast
à Boyne Island – 482 Km
Acordamos
às 4:00 da manhã batendo os dentes de frio.
Acendi a luz do carro e olhei o termômetro. O dito
tremia tanto, que a agulha oscilava entre os 6 e 8
graus. Achei impossível para essa latitude pois mesmo no inverno a temperatura
mínima deveria estar acima de 12 graus.
Trouxemos um cobertor fino, afinal estamos
indo para uma zona tropical. O cobertor estava debaixo da cama
e teríamos que sair da Van para pegá-lo. Nem
pensar. Liguei o motor e o aquecedor do carro para
ver se melhorava a situação. Como já estávamos
acordados e com o motor ligado, não faria a menor
diferença engatar uma marcha e seguir em frente. Foi o que
fizemos, e às 4: 30, ainda escuro, estávamos
entrando na
Bruce Highway, que é o nome que a estrada
ganha desde a Sunshine Coast até Port Douglas no
Norte da Austrália. Normalmente
nunca viajamos à noite porque a quantidade de
Cangurus saltitando na estrada é grande.
Atropelar um bicho desses pode botar o carro e
passageiros no hospital. Curiosamente
não haviam muitos, e os poucos que vimos usavam
casacos de pele de carneiro e meia no rabo. Esse trecho conta com
uma excelente sinalização de pista, e com o
farol alto parecia que estávamos em frente a um
telão de video-game.
Antes
da cidade de Gympie
a coisa ficou feia. Uma
neblina saiu das sombras, e não dava para enxergar um palmo
adiante do nariz. Vi vários carros parando, e fiz o
mesmo. Um carro que vinha atrás não percebeu que
todo mundo estava parado, e freiou forte. Me
contraí
esperando a batida mas ele parou a tempo. Todos esperaram pacientemente, e
10 minutos
depois a nuvem sombria se dessipou. Todos
começaram a
andar, inicialmente devagar, mas aos poucos
aumentando a velocidade até chegar aos 100 Km/h,
já sem nevoeiro nenhum. Após Gympie, a estrada continua
boa mas torna-se chata porque não há nada de
interessante para se ver por uns 200 Km até a
cidade de Maryborough. Essa cidade é um dos pontos
de acesso para a baía de Hervey, onde
todos os anos muitas baleias vêm fazer fuc fuc
sem camisinha para procriar. Existem vários tours
de barco para os Voyers (ver baleias). Decidimos
continuar viagem, pois já conhecemos muito
bem toda essa região. Por esse mesmo motivo, também deixamos a cidade de
Bundaberg para trás.
Já
era quase meio dia, e
estávamos no município de
Mirian Valle, entrada para a fabulosa praia de
1770. Nós estivemos nessa praia várias vezes e resolvemos deixá-la para pernoitar
na volta. Na velocidade limite de 50 Km/h na
área urbana de Mirian Valle,
resolvemos parar numa lanchonete que anunciava bem grande “ The best Meat
Pie in Australia”. Essas tortinhas de carne
são obssessão dentre os Australianos, e o
cardápio
dessa lanchonete continha muitas variedades, como
galinha, carne moída, carne assada, camarão,
cogumelos, e por aí vai. Escolhi a de carne assada e
a Celia a de cogumelos. Ambas estavam deliciosas
e combinadas com suco de maçã, sentimos
imediatamente que a viagem doravante seria
turbinada. Demos um tempo na cidade caminhando
para ver as vitrines e ao mesmo tempo esticar as
pernas, mas a cidade
acabou muito antes da digestão. Aproveitamos para encher o tanque pela
segunda vez (a primeira foi quando saímos), e
isso queria dizer que já havíamos rodado uns 500
km.
Não
sei porque, mas nunca tive curiosidade de conhecer
a cidade de Gladstone. Na viagem que fizemos
há 7
anos atrás, passamos direto tanto na ida como na
volta, e dessa vez não tinha perdão. Já estava
ficando cansado de dirigir, e olhando o mapa, vi
que ainda faltavam 130 km para Gladstone. Ao mesmo
tempo, percebi que haviam duas cidades pequenas
logo antes, ambas à beira mar. Nunca
havia escutado ninguém falar de Tannun Sands
e Boyne Island, e por isso ficou decidido
que seria lá que iriamos pernoitar. Antes de sair
da Bruce Highway, a Celia me disse que tinha
escutado um passarinho falar que a cidade de Calliope
era considerada histórica e era muito bonita, com
construções Victorianas e arquitetura bastante
preservada. Resolvemos dar uma esticada de 25 Km
até a cidade. Quando chegamos não vimos nada,
pelo contrário, achei a cidade sem
atrativos a não ser um hotel. Continuamos
um pouco mais à frente e chegamos numa pequena
vila com umas 20 casas bem rústicas, alem de um
celeiro e uma carpintaria. A pequena vila foi
inteiramente preservada desde o início da
colonização, e entendemos o valor
histórico, mas realmente não tinha nada que
tenha nos chamado a atenção. Decepcionados e
xingando o passarinho de mentiroso, pegamos a estrada de volta para Tannun
Sands. Na vinda tinha
visto um 4 x 4 cinza escondido no mato, e sabendo que era a
polícia operando um radar, passamos com o
ponteiro em cima dos 80Km/h, a máxima permitida
no trecho.
Chegamos
em Tannun Sands por volta das duas da tarde. A
cidade é pequena e jeitosa, cheia de casas
novas sendo construidas, um sinal de que está
crescendo. Continuamos na rua principal até
chegarmos num mirante, donde se podia ver a praia
e um parque à beira mar. Pela primeira vez tive certeza
que a viagem havia começado, pois o mar
parecia ser um lago, por causa da proteção da Grande
Barreira de Corais. A Barreira segura todas as ondas em
alto mar, e torna toda essa região um paraíso para
barcos de todos os tipos e tamanhos. No mirante
havia também uma rosa dos ventos em bronze, com as
indicações do Norte verdadeiro e magnético.
Aproveitei o achado para aferir nossa bússola de
bordo. Em seguida,
descemos uma pequena escada que dá acesso ao
parque e a praia. A primeira coisa
que fiz foi tirar a camisa e dar um mergulho.
Ficamos boiando naquelas
águas mornas até
relaxar. No horizonte, uma
fila de navios aguardava para aportar, pois
Gladstone é um das maiores exportadoras de minério
da Austrália. Contamos 23 deles.
De
Tannun Sands fomos para Boyne Island, que
realmente é uma ilha, ligada tanto a Tannun e a
Gladstone por duas pontes. Não tínhamos mapa dessa
cidade, e após procurar um centro de
informações turísticas sem sucesso, resolvemos
perguntar onde ficava o Caravan Park. O problema é que
não tinha alma viva na rua para perguntar, e
quando parávamos num sinal, só chegava um outro
carro bem na hora que o dito do sinal abria. Nos perdemos
uma ou duas vezes rodando em círculos, até que vi uma
loja de bebidas, e paramos para pedir
informações. O sujeito tinha me explicado duas
vezes e eu ainda não entendia bulufas. O sotaque do
cara era de
fazer criancinha chorar de tão ruim que era. Só me lembro de
entender "turn left and right" de resto
mais nada. O magnânimo parecia não entender que
não éramos locais, e dava pontos de referência do tipo,
“Açougue do Jeff”. Ora bolas, não conheço o
Jeff, muito menos sei onde fica o açougue dele.
Como posso entrar à esquerda lá? De qualquer
forma agradeci e comprei um "block"
de cerveja, ou seja, uma caixa com 30 latas que
custou A$ 35, enquanto na Gold Coast costumo pagar
A$ 29. Acho que a não informação prestada
custou 6 dólares a mais, mas a verdade é que o
preço de gasolina e muitas outras coisas, são
mais caros ao norte e em regiões rurais.
Finalmente
depois de perguntar outras duas vezes, chegamos
ao dito Caravan Park. Veio um cara magro alto, com
cara de fazendeiro nos atender. Eu também não
estava entendendo nécas de pitibiribas do que ele falava, e
achei que teria que me acostumar com aquele
sotaque que parecia mais de Vanuatu do que da
Austrália. Pelo menos ele
percebeu o ponto de interrogação em nossa testa, e passou a falar pausado.
Fiquei impressionado com a bondade do sujeito. Ele
nos levou até o local que iríamos ficar, nos
ajudou a conectar o fio de energia na tomada, nos mostrou a cozinha, como ligava o
gás, a cafeteira, a churrasqueira, e já ia me
dar uma aula sobre o funcionamento do microondas, quando eu disse num
tom quase implorativo que eu precisava mijar
urgentemente. Ao
voltar, vi de longe que a Van estava
completamente fora de nível, e mudei ela de
posição senão iríamos dormir de cabeça para baixo.
Satisfeito,
abri uma cerveja e fui dar uma volta no Caravan
Park.
No
folheto do Caravan Park
dizia que eles tinham
uma rampa para lançar barcos, e fui lá conferir. A rampa dava para um rio, e a maré estava
baixa, deixando à mostra somente uma lama
avermelhada. Eu queria testar nosso bote inflável
no dia seguinte, mas com aquela lama, a cagada ía
ser geral. Nisso
chegou um sujeito com uma vara de pescar, e
imediatamente me cumprimentou da maneira Australiana com um belo
G’day. Eu respondi com o classico “How is it
going?” Conversamos um pouco enquanto ele
preparava as iscas, e ele me disse que estava participando de um campeonato de
pesca, e havia tirado o primeiro lugar. Achei que
era conversa de pescador, mas o fato foi que em
menos de dois minutos ele já havia pescado um bom
peixe, e logo em seguida outro, e outro, e outro. Fiquei
curioso sobre que isca ele usava, e ele me deu uma aula
completa, não só sobre iscas, mas também sobre
a forma correta de prender o anzol. Outra coisa
que me chamou atenção era que ele
conseguia jogar a linha atrás de uma pedra com
precisão. Quando perguntei se o anzol não iria
prender na pedra, ele respondeu que um anzol custa
menos de 10 centavos e os peixes uns A$ 15
cada. Em 20 minutos ele havia pego 5 peixes e
perdido 3 anzois. Isso é o que se pode chamar de
excelente razão
custo/benefício. A Celia já havia tomado banho
e eu fui tomar o
meu. Na volta, ela estava conversando com uns vizinhos do Caravan Park, e me
juntei à eles. Quando escureceu, cozinhamos um
Gnocci com molho de tomate bem Italiano, que ficou
delicioso. O jantar caiu muto bem para esse longo
dia, e às 8 da noite já estavamos entregues aos
braços de morfeu...
De
Boyne Island
à Clairview – 450 Km
Acordamos
às 5 horas da manhã
e o céu estava estrelado com as primeiras luzes do
dia ainda para raiar. A temperatura estava
beirando os 9 graus, e era realmente muito
difícil
acreditar que estava tão frio praticamente nos trópicos. De qualquer forma a
noite foi melhor porque
além do cobertor tínhamos nos precavido com uma
coberta extra, e colocado roupas mais quentes
além de meias.
Descobrimos que na noite passada esquecemos de comprar leite,
pão e ovos para o café da manhã, mas tínhamos
queijo, presunto, e biscoitos, que foram
devidamente traçados junto com
café
puro. Preparamos a Van para sair, e por volta das 7:00
estava tudo pronto. Passeamos um pouco por Boyne
Island e voltamos a Tannun Sands para tirar
algumas fotos. Na volta, paramos num posto de
gasolina onde tinha um pequeno supermercado e
compramos comida para uns dois dias. Seguimos
então para Gladstone
numa estrada inicialmente boa, mas que depois
ficou bastante estreita com muitos veículos
nervosos, pois era a hora do "Rush"
matinal e as pessoas corriam para o trabalho como
alegres ratinhos. Nos lembramos que na Austrália
existe uma gíria para definir a correria por
grana, chamada de "Rat Race", ou seja,
corrida de ratos. Pior é que parecia
mesmo.
Chegamos
em Gladstone
cedo, mais ou menos 8:30 da manhã e o centro de
informações turísticas ainda estava fechado. Decidimos dar
uma volta a pé para fazer hora, mas não vimos
nada que nos chamasse a atenção. Havia uma
montanha de minério bem alta perto do porto, e
uma indústria soltando uma fumaça bem poluidora.
A cidade parecia parte de um subúrbio de qualquer
cidade da Austrália, e não vimos qualquer
construção que se destacasse por uma arquitetura
mais arrojada. De
posse de um mapa, saímos de carro para explorar
outras partes da cidade. O centro é constituido por ruas
paralelas com o porto na frente, e a rua principal com
prédios
de 2 andares pintados em cores alegres e com árvores na
frente. Do centro fomos ao
porto, onde vários navios de grande porte estavam
atracados carregando minério. Tiramos algumas fotos e descobrimos que
não havia mais nada para fazer em Gladstone, pelo
menos como turistas. Como ainda era cedo, optamos
por continuar viagem, e quem sabe voltar em outra
oportunidade desde de que nos paguem dois milhões de dólares, ou mais.
Pegamos
a estrada da saída Norte
ao invés de
retomar para Bruce Highway, decisão essa que nos faria economizar uns 40
quilômetros. Essa parte Norte de
Gladstone é feia, praticamente só com
indústrias de maquinário pesado para
exportação de minérios e
usinas de geração de energia. Nos dois lados da
estrada, um pântano deixava a mostra uma lama escura por
causa da maré baixa, e que cheirava a óleo
diesel batido no liquidificador com ovo podre. Finalmente pegamos a estrada
que conecta com a Bruce Highway, só que a alegria durou pouco.
Apesar
da estrada ter iniciado boa com limite de
velocidade de 100 km/h, ela tem um movimento pesado
de carretas, incluindo carretas com reboques.
Ainda por cima tem vários pontos onde a ferrovia
cruza a estrada. Numa
fila indiana atrás das carretas, nossa velocidade
não passava de 65 km/h,
e não havia um ponto sequer para ultrapassar.
Mesmo que ultrapassasse uma carreta, ainda
teríamos
umas outras 10 pela frente. Acabei tendo que me conformar
em seguir o comboio que nem tartaruga caquética. De repente para o meu
espanto todas as
carretas entraram numa estrada lateral, e ficamos
felizes como se tivéssemos ganho na loteria.
Gastamos todo o dinheiro em 10 minutos, pois logo
na frente tinha um casal rebocando uma
Campervan enorme e novamente a 65 km/h. O sujeito
era tão velho que balançava para frente e para
trás. A velocidade ía dos 45 aos 80 k/h
parecendo um ioio. Entramos na Bruce
Highway de novo atrás do véio, mas logo conseguí
ultrapassá-lo. Daí em diante tudo ficou bem, e apesar de
não ter
nada de interessante para ser ver na estrada, pelo menos
sentíamos um grande alívio de
ter saído de Gladstone.
Chegamos
em Rockhampton
às 11 da manhã, e paramos para comer alguma coisa.
Rockhampton é famosa por ser a capital Australiana do
bife, ou seja, lá produz-se muito gado de corte.
Rockhampton também é bem mais bonita, maior, e
mais interessante que Gladstone. Um rio corta a cidade,
e muitos parques com muitas árvores balanceiam
muito bem o visual com construções e shoppings
de desenho moderno e arrojado. O antigo também
tem vez, como a Igreja, uma das mais bonitas que
vi na Austrália (foto no topo da pagina). No
entanto, a cidade tem uma leve fragância de cocô
de boi, pois é um tal de caminhão passar cheio de
filé mignon indo pro abatedouro, que deixa um odor
peculiar no ar. Se você quiser virar vegetariano
basta seguir de perto um caminhão desses. O pior
é que o cheiro parece que gruda no estofamento e
nas roupas e
por muitos quilômetros adiante, institivamente eu
ainda olhava a parte de baixo das minhas
legítimas havaianas, para ver se tinha pisado
numa bosta bovina.
Cruzamos a ponte
para a parte Norte, e ficamos por um tempo discutindo se
íamos
parar nas famosas grutas (The Caves) que ficam 28 Km depois de
Rockhampton. Como já visitamos um monte de grutas
antes, resolvemos não gastar os A$ 50 do ingresso e seguir na estrada. Rockhampton tem uma
espécie de balneário de
praia chamado Yeppon que fica mais ou menos
à 40
Km no litoral, mas resolvemos deixar para visitar na volta. Logo
depois das grutas a estrada ficou lenta e
estreita. Até que não tinha muitos carros, mas
parece que aquele seria um dia para testar minha
paciência, pois novamente fiquei preso atrás de caminhões, caravans, e até mesmo de um trator
que andava alegremente à 30 km/h numa estrada cheia de curvas. Passei a ter
ódio desse tipo de viatura. A título de curiosidade, minha Van tem um motor de
somente 2000 cc, e isso quer dizer que não tenho
aceleração e torque, principalmente em subidas. A Van chega à 130 ou mais, mas eu tenho que estar no plano ou
numa descida para efetuar ultrapassagens com
segurança. Se você me perguntasse em quantos
segundos minha Van vai de 0 a 100 km por hora, minha resposta
seria..."Tres dias, 8 horas, e 59 segundos". Isso dito, não é
difícil imaginar o pé
no saco duplo que esses trechos foram.
Paramos
num posto
de Gasolina no meio do nada para abastecer. Tinha
uns 3 carros parados. Tanto eu quanto a Celia
fomos ao banheiro, e depois pegamos a estrada
novamente. Quinze minutos depois, a Celia vira-se
para mim e diz..." Volta! Não consigo achar
meus óculos, acho que caiu no chão do
banheiro". Voltei até o posto e ela procurou tudo e não encontrou. Foi na
gerência perguntar se alguém tinha achado e
nada. Reviramos a Van mais uma vez, bolsas,
porta-luvas, etc,,, e nada. Comecei a recordar dos eventos antes
da gente sair do posto, e me lembrei que logo que ela saiu
do banheiro entrou uma loura com cara de quem esta
vivendo do seguro social. Não tive dúvidas que
ela vendo aqueles óculos escuros "da
moda", de ótima qualidade, e que custaram
caro, embolsou o dito. O que a loura não sabia e
que os óculos eram de grau, de forma que a Celia
pudesse revesar comigo no volante. Em outras
palavras, os óculos íam ser inúteis para a loura. Me lembrei
também que só um único carro ainda estava no posto
na hora que saímos, o dela. Sem mais o que fazer,
voltamos para a estrada com a Celia totalmente
incorformada com o vacilo.
De
saco cheio de dirigir
e putos da vida com o episódio dos óculos,
resolvemos para num lugar à beira mar chamado Clairview.
Tem umas 50 casas, um Caravan Park, e é tudo. A
praia da frente é muito bonita, e o ambiente no
Caravan Park muito interessante. Parecia um
clube dos sessentões. No bar do Caravan Park, os
coroas estavam se divertindo, tanto homens quanto
mulheres, todos bem humorados, e
de posse de um copo de cerveja na mão. Resolvemos
participar, e decidimos pernoitar no Caravan Park.
Ainda faltavam 120 Km para Sarina,
e eu não teria mais saco de pegar a estrada de
novo naquele dia. Colocamos a mesa e cadeiras para
fora, abri uma cerveja, xingamos até a última
geração da loura, e passamos o resto da tarde curtindo o sol
que estava delicioso. Como sempre acontece em
Caravan Parks, um dos vizinhos veio puchar
conversa, e conhecemos um casal bem mais velho
talvez nos 70 anos, que estavam viajando a
Austrália por 1 ano. A Caravan deles foi construida
nos anos 80, e eles nos convidaram para entrar.
Descobrimos que a Caravan tinha muito mais espaço
e era bem melhor distribuida internamente que
muitas das modernas. Ficamos um tempão batendo
papo, e eles nos deram um monte de dicas de
lugares para visitar e para dormir. Todas as dicas
se
provaram valiosíssimas mais adiante.
A noite caiu
após um por do sol muito bonito, e o céu ficou totalmente
estrelado, além da temperatura estar uma delícia nos 24 graus,
não tinha vento. Para o jantar cozinhamos arroz com
tomate, cebola, e pimentão para acompanhar com um peixe
defumado que havíamos trazido de casa. O resultado
foi um prato de restaurante, tão gostoso que não
sobrou nem um grão para contar a história. Deitamos na cama
às 8:30 da
noite. Eu fui dormir, enquanto a Celia resolveu
ver um DVD
no nosso laptop, cujo título talvez tenha sido
"A lôra Zarôlha".
De Clairview
à Bucasia beach – 250 Km
A
noite passada foi estranha.
Acordamos um monte de
vezes. Primeiro por um trem de minério com uma
infinidade de vagões passando à cerca de 50 metros
de nosso "site" no Caravan Park. O chão tremia como
um terremoto. Lá pelas 4 da manhã, acordei de
novo com algo batendo contra a Van. Saí do carro
para ver o que era, e não levei muito tempo para
descobrir que a toalha que deixamos secando pendurada no
espelho, estava batendo freneticamente
contra a porta do carro. O vento estava forte e o céu não
tão estrelado quanto quando fomos dormir. A temperatura estava bem mais quente
que os dias anteriores e o termômetro marcava 14 graus.
Tudo indicava uma mudança de tempo. De qualquer
forma voltei prá cama e dormi de novo.
Acordamos
com o sol nascendo. Olhei
um clarão vermelho no
horizonte e munido da camera fui para a praia
fotografar. O espetáculo do nascer do sol foi
bonito, pois como haviam algumas nuvens
balançando no céu, o reflexo das cores era
variado. A maré estava baixa, colocando à mostra os
corais com poças d’água no centro, e eles também
refletiam luz. Voltei para a Van para preparar o
café da manhã, e a Celia estava saindo para o
banheiro. Falei sobre o nascer do Sol e ela foi
lá
conferir. Resolvi fazer uns omeletes de queijo e tomate,
pois acordei com fome. O vento ainda estava forte, e
preparamos a Van para partir. Nossos vizinhos
também iam zarpar, e combinamos de nos encontrar no
Caravan Park de Bucasia Beach, ao norte de Mackay.
Saimos
às 8:00 da manhã,
e a estrada estava bem vazia, aliás, aprendemos que a melhor hora para
pegar a estrada na Austrália é entre 6:00 e
10:00 da manhã, pois só tem caminhão, e eles
sentam o pau. Depois disso entram os "Grey
Nomads" ou seja, a velharada aposentada que
vende casa, tudo, e ficam eternamente rodando a
Austrália em trailers, usualmente à
despreocupados 70 Km por hora em estrada de 110.
Mas essa
estrada estava ótima, vazia, com excelente cobertura, e
coisas interessantes para ver. O vento forte de
Sul, dava a
Van um empurrão à mais, nos poupando gasolina e
fazendo com que o carro viajasse à 105 Km/h sem
quase precisar tocar no acelerador. Os poucos
veículos que vimos eram quase 80% caminhões, 10% de carros, e 10% de
Caravans. Com o
vento por trás, os caminhões me deixavam à ver
poeira, e quando eu tinha uma Caravan pela frente,
eu ainda tinha bastante curso no acelerador para
passá-los facilmente. Esta sim é o
tipo de estrada que dá prazer de dirigir.
Os
120 Km de
Clairview até Sarina foram feitos em pouco mais de
uma hora, e às 9:30 da manhã já estávamos parados
no "i" no Tourist Information pegando mapas e
informações sobre a área. Aproveitamos para
comprar um livro sobre os lugares onde pode-se
pernoitar de graça na Austrália com uma Caravan
ou Campervan. Este livro custa A$ 49 e tornou-se
tão popular entre os "Grey Nomads", que deixou o
autor rico. Afinal, o custo do livro se paga com duas
noites de camping grátis. O lance é que ele
listou em toda a Austrália, (e colocou nos mapas
do livro) os lugares onde as prefeituras e
governos estaduais permitem pernoitar, pois nao é
toda as prefeituras que permitem. Oficialmente na
Austrália só pode-se dormir ao relento em terras
federais, que não são muitas, a não ser que
você queira dormir em um dos desertos. Mesmo
assim parte dos desertos são terras Aborígenes. Sarina tem praticamente
uma única rua, que não é feia nem bonita. A cidade tem forte
conexão com
mineração, tanto que uma das
estradas para Hay Point no litoral virou atração
turística. O motivo é que essa localidade possui a maior estrutura de
carregamento de minério no mundo, com esteiras
que avançam mar adentro por sobre um pier de
concreto, até se perder
de vista no oceano (a amplitude de marés é
gigantesca na área). Pode-se considerar essa
facilidade uma das maravilhas do mundo em termos de
coisas construidas pelo homem. De Sarina também saem estradas para duas
outras belas praias, Grasstree e Campwin
Beach. Como o céu estava meio nublado, resolvemos deixar
para visitá-las em outra oportunidade.
Seguimos
para Mackay, e nossos planos eram de entrar na
cidade para conhecê-la, pois nunca estivemos
antes. Também queríamos fotografar algumas
construções em Art-Deco que eles preservam por
lá e são famosas. Quando nos aproximamos do centro,
paramos numa loja do
Tourist Information para pegar mapas etc..Mesmo
com o mapa, entramos meio que perdidos na
cidade, e
quando paramos num sinal percebi que a temperatura
do carro estava muito alta. O que sucedeu não dá
para acreditar. Eu simplesmente não encontrava uma
única vaga para estacionar. Tinha carro para todos
os lados e o trânsito era extremamente lento
devido a uma infinidade de sinais. O marcador de
temperatura já tinha encostado no vermelho, e mesmo
depois de entrar em ruas secundárias, eu ainda
não havia encontrado um lugar que
coubesse qualquer coisa maior que uma
motorcicleta. Motoristas começaram a businar
atrás de mim, coisa
que para um australiano fazer é porque você
está fazendo muita merda no trânsito.
Sem
opção, entrei de quarquer jeito no
pátio de um galpão comercial e desliguei o motor.
Não passou 3
minutos e a porta do galpão abre com um pickup
querendo sair. A luz da água estava vermelha no meu painel, e eu tinha que
entrar de ré na rua novamente para o sujeito
sair. Demorou um tempão, e eu estava começando a ficar nervoso, pois sabia que a
qualquer momento o carro ia esfumaçar, quebrar,
pegar fogo, ou fundir o motor. Andei uns dois
quarteirões entrando à direita e esquerda, e
nada de vagas. De repente vi um estacionamento de
supermercado e entrei. Também não tinha vaga.
Até que vi uma mulher saindo com compras, e quando
ela chegou no carro dela eu me posicionei atrás
trancando a rua. Tinha um monte de carros atrás de
mim, mas de lá eu não saíria nem morto até
entrar na vaga da mulher (sem trocadilhos por
favor).
Como
não podia fazer nada
até o motor esfriar,
resolvemos entrar no supermercado e repor nosso
estoque de comida. Aproveitei para indagar sobre
um mecânico por perto. Quando voltamos o carro
estava morno, e já deu para abrir o
radiador. O dito estava completamente vazio. Peguei umas garrafas de
plástico e enchi até a boca. Em seguida,
deitei embaixo do carro para ver onde
estava o vazamento. Nada, nem uma gota pingava.
Inspecionei as mangueiras, correia do motor, e
tudo estava em perfeito estado. Liguei o motor e
esperei e em cinco minutos a temperatura voltou
ao normal. Desliguei e me meti debaixo do
carro novamente. Mas uma vez, nem uma gota
pingava. Intrigado, mas de saco cheio do que
aconteceu, resolvi seguir para Bucasia Beach, e
largar aguele centro urbano estranho de Mackay que parece ter 850 mil carros para 85 mil
habitantes e 85 vagas.
Bucasia
Beach fica
à 20 km ao Norte de Mackay, e foram feitos sem problemas apesar de eu não
desgrudar o olho da
temperatura, que agora estava mais normal do que
nunca. Chegamos no Caravan Park onde havíamos
combinado com nossos amigos de pernoitar, e tivemos
um susto. A$ 31 por pernoite. Era o mais caro até
então, pois temos pago entre A$ 20 e A$ 25. A dona
disse que o preço era devido a alta
temporada, por causa das férias escolares. Enfim, perguntamos por um desconto
ou se havia outro Caravan Park nas imediações, e
a resposta para ambas as perguntas foi não. Sem
escolha, resolvemos
ficar e tivemos uma agradável e outra
desagradável surpresa quando chegamos no
"site". A
agradável é que o "site" era literalmente de
frente para o mar, praticamente na areia, e a
desagradável é que ele era espremido entre um
árvore e uma família acampando. Cheguei a pensar
em pedir para mudar, mas logo chegaram periquitos
e patos para nos entreter, e a familia ao lado se
mostrou
bastante simpática.
Armamos
a mesa e deixamos tudo
pré pronto para
o jantar. Nossos amigos chegaram, e contamos o que
aconteceu em Mackay. Sem ficarem impressionados,
ele contou que uma vez também penou para
estacionar lá, e pior ainda, ele estava rebocando
a Caravan que precisa do espaço de 3 carros
para estacionar. Agora ele não entra mais na
cidade e vem pela estrada do contorno. Pensei na
situação dele, e imediatamente me senti
melhor. Abri uma
cerveja, peguei a camera, e fui dar uma volta na praia.
O lugar é bonitinho, mas nada que justifique o
auê que fazem sobre a praia. Talvez porque a
maré estivesse muito baixa, expondo um banco de areia enorme com
alguns barcos no seco. O céu também estava um pouco
nublado, mas parecia que o tempo ia abrir. Tirei algumas fotos e em seguida fui tomar um banho para
tirar a inhaca de Mackay. Percebemos que algumas
famílias no Caravan park estavam com as crianças
indo para escola de uniforme, e eles contaram que
estavam esperando alguma propriedade ficar vazia
para morarem em Mackay. Devido a mineração
perto, havia grande falta de residências para
alugar.
Depois fiz uma nova
vistoria no carro tentando advinhar o que tinha
acontecido, mas o mistério da água desaparecida
continuou. O radiador continuava cheio até a
boca. Conectei a energia elétrica e fui pro banho.
Quando
escureceu fui fazer o jantar.
Fiz um carré de porco bem magro, frito em duas
gotas de azeite, acompanhado de arroz, batatas e
creme de espinafre. Mais uma vez
a comida estava uma delícia. Liguei o
Laptop e conectei o cartão da TV, felizmente tinha
recepção na área. Vimos as últimas notícias
da Austrália e do mundo, e o reporter do tempo deu
previsão de chuvas para o dia seguinte. Tudo o que
nós queríamos é que eles estivessem enganados.
 |
| Foto
panorama
de Bucasia Beach na maré baixa |
De
Bucasia Beach
à Townsville – 450 km
A
meteorologia acertou e amanheceu meio nublado, mas sem
chuvas.
Fomos dar uma caminhada na praia antes do café da
manhã e além de um pouco frio ventava um pouco. A praia estava
feia sem sol, e na volta olhando
para o Sul, dava pra ver que vinha chuva por aí.
As nuvens estavam sinistras. Fiz um sanduiche de queijo e
presunto na chapa e comemos com suco de
manga. Dei outra olhada para o céu na direção
Norte, e tinha um monte de buracos azuis. Assim
arrumamos a
Van para a estrada e passamos na Caravan de nossos
amigos para dar tchau. Nossa idéia era de ir para o Cape
Hillsborough, 30 km mais ao Norte, exatamente onde
eu tinha visto o céu aberto. Esse lugar é um
parque nacional, e é super bem recomendado.
Disseram ser um dos mais bonitos nessa costa, onde
inclusive encontra-se Cangurus na praia.
Abastecemos
o carro dessa vez pagando A$ 1,25 por litro,
preço que tem subido desde
que saimos da Gold Coast. Na verdade, o certo
seria A$ 1,31 mas paguei esse preço porque escolhi colocar o novo
combustível
que a Austrália esta tentando introduzir, o chamado
"A10", porque
contém 10% de álcool na gasolina. Já perguntei para algumas
pessoas porque não gostam do A10, e eles sempre
falam que é menos poluidor, mas que estraga o
carro. Australiano é meio que ovelha, quando
alguém fala alguma coisa todo mundo segue de olhos
vendados. O A10 está sendo vendido
primeiramente no nordeste da Austrália pelo
simples fato de ser a área da cana de açúcar.
Dirige-se centenas de quilometros somente com plantação de
cana nos dois lados da estrada. Da cana fazem
açúcar
e Rum, mas ainda não aprenderam a fazer a
cachacinha "marvada". Depois do posto o
céu abriu e
ainda andamos uns 10 minutos com tempo bom, mais logo em seguida
o dito fechou de
novo.
De
Bucasia
para se ir para o Norte, tem que voltar para
Mackay. No entroncamento da estrada do contorno, tinha um moderno e novo shopping center.
Resolvemos parar para comprar mantimentos, pois
sabíamos que lá no Cabo não tem nada a não ser
uma pequena venda. A Celia
aproveitou para ir no Internet Café checar
nossos emails, enquanto eu fiquei no carro
escutando o rádio para saber mais sobre o tempo nos
próximos dias. O cara do rádio disse..."I
don't believe this is Mackay, 3 consecutive days of rain !" Como ele, eu
também não acreditava que
vinham 3 dias de chuvas pela frente, e fui na
Internet checar um mapa do satélite GOES, que nunca
mente. E não mentiu! Tinha uma nuvem gigante que
vinha desde o norte da Austrália e cobria
praticamente todo o nordeste do estado de
Queensland. A única coisa que consegui pronunciar
foi..."Celia estamos ferrados!" Ainda no
estacionamento do shopping, debaixo de
uma cobertura de aço, o céu caiu sobre nós.
Não dava nem para escutar o rádio, tal o barulho
que a chuva fazia
na chapa. Tínhamos que tomar uma decisão....
A
Celia chegou a conclusão que
se fossemos ao Cabo, só iríamos ver os cangurus na
praia usando capa e guarda-chuva, e assim o melhor seria subir para o Norte e ganhar tempo
de estrada. Feliz da vida que minha mulher depois
de 25 anos ainda raciocina, topei na hora. Quinze minutos
depois já estávamos na Bruce
Highway com destino à…não temos a menor
idéia. Os planos de viagem foram pro beleléu e
agora vamos para o que der e vier. O tipo de
chuva deixava claro que tinha vindo para ficar.
Não era forte nem fraca, mas sim de uma
constância
impressionante, perecida com a do chuveiro lá de
casa. A estrada estava boa apesar
de bem molhada, e me pareceu que todo mundo estava
com a mente em segurança, pois ninguém passava de
90 Km/h e haviam muitos carros e caminhões, todos
respeitosamente em fila, trafegando sem ultrapassar
e mantendo distância uns dos outros. Nem parecia aquela Austrália onde volta e meia alguém faz
merda na sua frente, ou andam tão grudados na
trazeira, que parecem que vão passar por cima à
qualquer momento.
A
única coisa que me incomodava era que
nós estavamos chegando numa das mais bonitas e
interessante partes da Austrália e no entanto
estávamos passando direto. Até agora nosso bote
inflável continuava que nem velha de 90 anos,
enrugado e murcho na mala, e o indigesto motor de
5 HP ainda não deu nem um peidinho seguer. E assim
passamos direto por Proserpine, e as
Whitsundays, que é um conjunto de 74 ilhas ao estilo
Angra dos Reis, e cuja praia principal Arlie Beach,
é famosa mundialmente pelos agitos noturnos,
bares, restaurantes, além dos incríveis
passeios de barco. Passamos também Bowen, outro lugar imperdível
no qual já tínhamos pernoitado na
primeira viagem, e achamos lindo. Continuamos na estrada debaixo de chuva, só
parando nos Tourist Information para coletar
folhetos de atrações turísticas. Enchemos uma
caixa de papelão de folhetos, e até cartas
náuticas
conseguimos "di grátis". Fizemos um lanche na
Van,
e como não me sentia cansado de dirigir,
continuavamos rumo Norte.
Estávamos
agora perto
da cidade de Ayr, e para nosso deleite a chuva parou e a
estrada secou, mais ainda continuava nublado.
Estávamos
planejando pernoitar em Ayr, mas lá não tem nada
de interessante, e como eram 3:30 da tarde e
faltavam só 88
Km para Townsville, perguntei para a
Celia..."E aír ?!", e ela
respondeu..." E Ayr que podemos esticar até Townsville.
Com a estrada seca, deu para voltar aos 110
km/h e íamos progredindo muito bem. O céu abriu
uma brechinha nas nuvens, e o Sol iluminou o
asfalto. Mas a alegria durou pouco. Fiquei
preso atrás de umas 3 Caravans murcêgas que
desenvolviam a intrépida velocidade de 60 Km/h. A estrada estava
bem movimentada nos dois sentidos, cheia de
curvas, o que fazia de qualquer tentativa de
ultrapassagem uma coisa extremamente perigosa e
burra. E o pior,
Townsville não chegava nuuunnca! O Tourist
Information fica 5 Km antes da
cidade, ainda na estrada, e lá paramos para saber
sobre as acomodações disponíveis. Como tudo na Van
estava um pouco úmido, pensamos em variar um
pouco e ir dormir num hotel, mas o preço logo nos convenceu o
contrário. Tinha
um Caravan Park perto do centro por A$ 20 a noite,
contra A$ 90 do hotel mais barato.
Chegamos
no Caravan Park e a recepção estava fechada.
Esperamos uns 15 minutos e nada. Uma boa alma veio
em nosso socorro e foi buscar o responsável. O
sujeito nos disse que não tinha “Powered
Sites” que são os espaços que sempre usamos, com energia
elétrica e água encanada, além de uma plataforma de
concreto, onde pode-se armar mesa e cadeiras sem se
atolar no chão. Quando ele olhou prá minha
cara, acho que ficou com pena (ou medo) e arranjou
um lugar com tudo que tínhamos direito, só que bem
ao lado da cozinha comunitária do Caravan Park. Aceitei
quase de joelhos dando benção ao céus, pois eu
só sairía
dali em caso de Tsunami. Mesmo com uns
coqueiros muito altos carregados de coco bem em
cima da nós, ali ficamos. Aqui vale uma nota que
na Austrália morre mais gente por queda
de coco na cabeça do que em ataques de tubarão,
cobras venenosas, aranhas, águas-vivas e crocodilos,
tudo junto. Mas como iríamos dormir dentro do carro e
não fora dele, e carro não morre
de coco na lata, só amassa, então não demos muita
bola, mas procuramos ficar fora da mira daquelas
suculentas coisas redondas.
A
Celia tinha comprado carne
moída e
uma salada pronta
no supermercado para o jantar, fizemos uns hamburgers
na chapa e comemos com a salada.
Depois, fomos até a recepção saber sobre
acomodação na Magnetic Island, uma Ilha em frente
a Townsville onde estivemos antes, e em nossa
opinião um dos lugares mais espetaculares e
gostosos da Austrália. O céu estava ainda nublado mas tinha
vários buracos com estrelas, e pelo o que
escutamos, os próximos dias seria bons com alguma
chuva ocasional. Conseguimos reservar para o dia seguinte um "Powered
Site" no mesmo lugar que estivemos antes na
Magnetic Island por
A$ 25 a noite, e também reservamos a balsa que
levaria o carro por A$ 145. A balsa estava bem
carinha para 30 minutos de travessia, mas
queríamos tanto rever a Ilha que
topamos na hora. Vimos um pouco de TV e fomos
dormir umas 9 da noite.
De Townsville
à Magnetic Island – 10 milhas
Sonhei
que estava na estrada e
na minha frente tinha um tanque de guerra
andando à 30 km/h. Toda vez que eu tentava
ultrapassar ele virava o canhão e atirava
coco em mim. Com certeza as caravans lentas, o
coqueiro em cima de nós, e as carretas do
exército
carregando tanques que vimos na
estrada, embolaram a minha cabeça. De qualquer
forma dormimos bem e acordamos bem dispostos.
Comemos um sanduiche de queijo com banana com o
resto do suco de manga e preparamos para partir.
Tínhamos que estar às 9:00 no local de onde o ferry sai para a Magnetic Island.
Já sabíamos que o ferry de veículos sai do
outro lado do rio, mas mesmo
com um mapa nos perdemos algumas vezes por falta de
sinalização na área portuária de Townsville.
De qualquer forma, não demoramos para
encontrar o local, e
chegamos em tempo de embarcar. O dia estava
nublado mais parecia que ía melhorar.
Haviam
4 carros
para fazer a travessia conosco, e a balsa
leva cerca de 45 minutos para completar as 10
milhas náuticas que separam a Magnetic Island do
continente. O nome Magnetic, vem da época que o
intrépido Capitão Cook (aquele que falou a
célebre frase..." Cook de bêbado não tem
dono") ao passar ao largo da ilha, viu que a
bússola de bordo ficou completamente maluca, e
achou que a ilha tinha poderes magnéticos. Hoje
ficou provado que era verdade, não no sentido de
campos magnéticos, mas por causa
das belezas naturais e das praias, que
fazerm até siri suspirar.
Depois
que a balsa saiu
o céu abriu um poco e iluminou a Castle Hill,
montanha símbolo de Townsville. Na balsa, enquanto todos
tomavam café e liam jornais na pequena lanchonete,
nós fomos
para a terraço panorâmico. Não tinha ninguém
lá, talvez pelo vento
ainda um pouco frio. De longe, a Magnetic Island
se mostrava com uma nuvem negra pousada em cima, e
tudo que queríamos era que alguém soprasse
aquelas nuvens para longe. Ao nos aproximarmos da ilha, vimos que
a dita continua a mesma, exceto que mudaram o
lugar que a balsa aportava para um novo terminal,
que agora tem um complexo de prédios baixos simplesmente
medonhos. Fiquei
pensando como permitiram aquilo, mas meus
pensamentos foram interrompidos pelos auto-falantes
solicitando à todos os motoristas que regressassem
aos seus veículos.
Chegamos
e pegamos a única estrada que a ilha. A dita tem 19 km de
extensão, e é uma estrada
estreita que vai se espremendo em curvas morro
acima e morro abaixo. A cada curva surge uma nova
enseada, cada qual com uma praia de tirar o
fôlego. Um terço
da área da Magnetic island é classificada como
área urbana, e o restante Parque Nacional. Fomos direto para o
lugar que reservamos, e soubemos que o mesmo havia mudado
de dono. De Geoff's Place mudou para Koala
Sanctuary. Não reconheci a entrada, pois
construiram uma marquise alta com velas de barco decorando
e fazendo sombra na frente do restaurante e bar.
Antigamente esse lugar era sempre lotado de galera
do mundo todo, e todos os dias tinha um
tema-noite, por exemplo, noite havaiana, onde
pratos e drinks eram típicos do lugar e as
pessoas se vestiam de acordo. Mas dessa vez não
tinha muita gente lá, e acabaram com as noites
com temas.
Contamos umas 30 pessoas e era
só.
Levando em conta que o lugar tem umas vinte cabines para até
quatro pessoas cada, quartos para mochileiros,
"sites"
para Caravans e Canpervans, e uma vasta
área
para acampar, o lugar estava praticamente deserto.
Escolhemos um "site" bem espaçoso, cimentado, e bem nivelado,
afinal iriamos passar uns 4
dias na ilha. Pela primeira vez nessa viagem
não iríamos pegar estrada no dia seguinte. Resolvemos
testar o toldão, e a montagem foi muito mais
fácil que pensamos. Logo que acabamos, caiu um dilúvio. Choveu muito forte mesmo, e eu
comecei a rir. Ri da sorte em ter acabado o toldo dois minutos antes da chuva, e também pela alegria de ver
a minha
teoria funcionando. O toldo em forma de
telhado com carro embaixo, barraria o vento e a chuva que viessem pelos lados.
Deu certo, e ficamos nós e o interior do
carro, completamente secos. Mesmo com o
dilúvio à um metro de nós, a água não respingava pra
dentro.
Passamos
o resto do dia
relaxando e vendo a chuva cair. O cheiro de
terra molhada impregnava o ambiente. O barulho da
chuva caindo na mata era deveras calmante, e por
incrível que pareça estavámos curtimos muito
essa chuva, principalmente num lugar como esse. De repente escuto um trovão
distante, cujo barulho foi aumentando de
intensidade até se tornar insuportável. Parecia
um avião, mas nunca na minha vida escutei algo
tão alto. O chão literalmente tremia. Olhei para
o céu e não vi nada, até que de repente saem
das nuvens quatro Caças F-16 da força aérea
australiana, voando em formação. Eles vinham à
uns 100 metros de altura, com os trens de pouso
abaixados prontos para pousar na base de Townsville. Esses
caças nem precisam de mísseis, pois matam
qualquer um de 'tímpanite aguda" só com o barulho.
E não foi só a gente que se assustou. Uns cinco
periquitos vieram para debaixo do toldo e
resolveram ficar por lá. Tem um pousado em cima da
tela do meu Laptop, conforme a foto ao lado.
Quando
deu 6 da tarde e
já escurecia, resolvemos ir fazer uma social no
bar e restaurante do lugar. Eu pedi um chope
gelado e a Celia um refrigerante de limão.
Pedimos também uma porçao de fritas para beliscar, e
ficamos de papo com pessoas que estavam lá. Eu ia
pedir o segundo chope quando a Celia falou: "- Roger,
tem cerveja no carro, deixa prá tomar lá. Aqui eles estão cobrando A$
4 cada uma". Imediatamente entendi porque não tinha
mais galera no lugar, pois o preço
normal de um chope na Austrália é A$ 2,50, ou seja,
eles estavam cobrando quase o dobro. Resolvemos
voltar para a Van e comer e beber por lá. Um
Possum, marzupial noturno que tem em abundância
na Austrália, deu as caras para pegar as rebarbas
de nossa tangerina de sobremesa. Os Possums
possuem um olfato extraordinário, e são capazes
de sentir cheiro de comida dentro de potes de
vidro tapados. Eles se aproximam dos humanos sem
medo, principalmente no Caravan Park onde já
estão acostumados com as pessoas. A
chuva ainda caía
quando deitamos, e fomos assistir ao noticiário e
ao reporter do tempo. Para amanhã, a previsão
era de tempo bom com muinto Sol, mas nublando no
final da tarde. Satisfeitos com a boa notícia,
ainda assistimos um DVD antes de dormir.
Magnetic Island,
primeiro dia
A
Chuva parou completamente,
mas ficou um vento forte de rajadas que me fez
acordar de madrugada para acudir o toldão, que
queria retornar à terra firme por conta própria.
Dois prendedores com respectivas cordinhas se
soltaram, e o toldo balançava freneticamente
fazendo um barulho infernal. Munido de martelo e
prendedores mais longos, fixei o dito de forma que
se voasse ía ter que levar a ilha junto. Em seguida
voltei pra cama e dormi.
Acordamos
com o dia raiando e ainda ventava forte, mas quase
não havia mais nuvens no céu. Quando olhei para a
mesa, tomei um susto. Possums cagaram em cima do
sagrado lugar em que comemos, além do chão ao redor.
Não entendi essa vingança,
pois tínhamos lavado a mesa com detergente, e
não deixamos nenhuma comida fora,
nem um saleiro sequer. Lavamos a cagada e já
íamos cozinhar uns ovos, quando descobrimos que o
gás tinha acabado. Era impossível, pois me
lembro que em Townsville a bisnaga ainda estava
pela metade, e deveria durar mais uns 7 dias cozinhando
2 vezes por dia. Fui
examinar o fogão de perto, e vi que a capa de
plástico estava toda arranhada, e o pino de
segurança armado para baixo.
Realmente era difícil acreditar que um mazurpial
tenha tentado esquentar a comida dele em meu
fogão, pois têm-se que empurrar o
pino para à esquerda e depois para baixo, em
"L". Em outras palavras, o Possum tentou
de tudo para abrir o fogão, e na tentativa abriu o
gás. Tudo isso por causa do cheiro de peito de
frango que a Celia fez na noite passada. Bem
resolvemos não deixar doravante mais nada de fora, e
durante à noite, a mesa ficaria tombada de lado.
Vá cagá no mato seu Possum, na minha mesa não!
Fomos
dar uma volta
na Horseshoe Bay (ou Baía da Ferradura para os
íntimos), a praia que fica à menos de 100 metros
do local em que estávamos. Essa praia é a mais popular da
Maggie, como os locais chamam a ilha, pois é
muito abrigada dos ventos e completamente sem
ondas. Por isso devotos de esportes aquáticos,
como jet
ski, ski aquático, vela, kaiaks, e muitos outros,
adoram fazer presepadas para se mostrar .
Aproveitei para examinar a rampa de lançamento de
barcos, para a estréia do nosso inflável, que se daria
tão
logo o vento acalmasse. Não teríamos problemas
em obstruir a rampa enquanto inflássemos o barco,
pois em ambas as laterais havia boa quantidade de
areia, sem pedras que pudessem furar nossa
intrépida embarcação.
Andamos
pela rua
beira-mar, que foi inteiramente remodelada e ficou
tão bonita que não dá vontade de sair de lá. Banheiros,
bancos, mesas, e locais para se fazer um churrasco
na chapa, todos públicos, foram pintados por
estudantes de artes com cores vivas e temas
marinhos como peixes e corais. Entramos no pequeno
mercado na
esquina, e o dito tinha absolutamente tudo que se
encontra num supermercado de porte, claro que só
um pouco de cada ítem, sem variedade de marcas, mais tinha
até pão francês quente, coisa rara de se encontrar em
muitas cidades da Austrália. Compramos pão queijo e leite sabor morango, e fomos para uma
das mesas na praia para tomar o nosso café da
manhã. A paisagem era bucólica, e o sol saindo
de trás das montanhas dava um colorido avermelhado
todo especial ao lugar. A tranquilidade era total e a gente comia sem dar uma palavra, só
observando aquela extraordinária paisagem.
Ponderamos em montar
o barco mais tarde, mas ambos concordamos que
estávamos mais para caminhar do que ir para o
mar, pois ainda estava um pouco frio e ventando, e pelas horas que passamos sentados
no carro nas estradas, precisávamos de alguma
atividade física para manter a forma. Decidimos
então fazer a
trilha do Forte.
Voltamos
ao Camping,
e às 10 horas saímos a pé numa jornada de 12
quilômetros ida e volta, até as ruinas de uma
fortificação da Segunda Guerra Mundial.
Primeiro andamos no plano. pela única estrada da
ilha até chegar
no acesso, e depois entramos na trilha que tem
cerca de 2 metros de largura com eucaliptos e
outras árvores nos dois lados. Por causa dos
Eucaliptos, cerca de 200 Koalas vivem soltas por
lá, e é possível vê-las de perto, desde que se
vá
na hora certa, ou seja, depois das 3 da tarde, quando
acordam, pois passam cerca de 20 horas por dia
dormindo, e quando acordam tudo o que fazem é
comer, transar, e voltar a dormir (não
necessariamente nessa ordem).
A
folha do Eucalipto é tóxica,
e faz com que as Koalas fiquem sonolentas. Até
mesmo periquitos em época de seca comem a planta
por causa da humidade. Eles ficam intoxicados e
acabam dormindo no galho, caindo duros no chão.
Ficam completamente anestesiados. Alguns quebram
patas e asas, e outros morrem. É fácil saber se tem uma
Koala por perto
bastando observar o tronco das árvores. Se estiver
todo arranhado, é porque elas estão lá em cima em
algum galho, e as vezes fazem cocô na trilha,
denunciando a presença na área. Mas dessa vez pela
hora que fomos, não vimos nenhuma, mas há 7 anos
atrás fomos na hora certa e vimos 4.
A
trilha do Forte é histórica
porque na Segunda Guerra o Japão tentou
invadir a Austrália e Townsville era estratégica
para tal. Por isso contruíram no topo de um morro
da ilha uma fortaleza, composta de uma torre de
observação, outra de comunicações, canhões, e baterias
anti-aéreas. Por causa da geologia da Maggie ser
toda pedregosa, contruíram as coisas camufladas
entre pedras gigantescas, de forma que se o ataque
fosse por mar, jamais poderiam destruir os
canhões, devido a proteção natural. A trilha é
bastante íngreme, e algumas vezes tem se que parar para
retomar o fôlego. Nessas paradas o silêncio é total, e pode-se escutar e ver
várias espécies de pássaros por
perto.
Durante o
trajeto, trilhas
auxiliares saem da principal, e vão dar no paiol de
pólvora, na
enfermaria, na cantina etc, mas da maioria
dessas instalações só sobrou uma base de concreto e mais nada.
O
posto de Observação fica
no topo da colina, em cima de pedras enormes
e para se chegar lá sobe-se em zig-zag por dentro
da mata numa trilha ultra íngreme. De vez em
quando abre uma brecha na mata, e dá para
contemplar o panorama. É muito importante não
sair da trilha, pois existem cobras venenosas,
principalmente a Dead Addler, uma prima da
cascavél que se esconde debaixo de folhas mortas
no chão. Dentro da trilha não tem problemas. Lá
de cima do posto de observação tem-se visão de
quase 360 graus, e a casamata construida de
concreto com paredes bem grossas. São dois
andares, o de cima para vigia, e o de baixo para
cama, comida e armamento. Todas as construções
que lá se encontram foram erguidas entre 1942 e
1944.
 |
| Vista
do posto de observação - Panorama de 5
fotos emendadas |
Regressamos
ao Caravan Park
por volta das 3 da tarde. Nossos pés estavam
pedindo pinico. O quilômetro final fizemos quase
nos arrastando, e se tivesse passado um carro o
dedão tinha subido, mas o único que passou estava
cheio de gente. A Celia ficou com bolhas nos
pés, e eu com os calcanhares que já não
conseguiam encostar no chão. Realmente é muito
importante usar o calçado adequado para andar
longas distâncias, ou então o resultado é esse.
Abri um cerveja estupidamente gelada que desceu
que nem aquelas pedras gigantes rolando colina
abaixo. Um Suíço naturalizado Australiano que
administra a parte de Camping e mora num trailer
ao nosso lado, veio perguntar como foi nosso
passeio. Uma das coisas interessantes que ele
contou, e que não sabíamos, diz respeito ao nome
Koala, em Aborigene significa "sem
água", ou seja, o animal chama-se Koala
porque jamais bebe água, e retira o que precisa
da umidade contida nas folhas do Eucalipto.
Quatro
e meia da tarde
no Caravan Park é hora de alimentar os
periquitos, e isso acontece diariamente. Uma
pessoa vem com uma bacia contendo pão com farinha
e água e põe no chão. A periquitada voa direto
em cima, fazendo uma verdadeira algazarra. A
quantidade de periquitos gritando para defender a
bóia do dia é enorme, e chega a doer os
tímpanos pelos gritos agudos que dão. As pessoas
metem as mãos na bacia, pegam um pouco de comida,
e logo em seguida os bichos estão pousando em
todas as partes do seu corpo. As unhas são
afiadas, e tive minha careca devidamente cortada
ao ponto de sangrar. Um deles ia escorregando por
minha testa e travou as patas na minha
sombrancelha, apertando forte. Sangrou também e
ai coloquei o capuz.
Turistas de todas as partes da ilha vem ver o
espetáculo que realmente é um show de cores.
A
noite caiu
e estávamos morrendo de fome, mas cansados para
cozinhar, e por isso fomos ao restaurante do
Camping. Eles anunciavam o especial do dia que era
uma Pizza por A$ 6 e pedimos duas de tanta fome
que estávamos. Aquilo era tudo menos pizza,
apesar de ser redonda, pois não tinha queijo em
cima ou se tinha, deram pros periquitos antes. Só
comemos molho de tomate e cogumelos, e só depois
fomos descobrir que garçonete era turista da
Alemanha e estava fazendo um bico por lá,
trocando acomodação grátis por trabalho. Ela
entendeu que queríamos pizza vegetariana sem
queijo. Nós não pedimos pizza vegetariana falei
pra ela, e ela virou as costas e foi embora,
grossa que nem o canhão que tinha no forte antes.
Voltamos para a Van às 8:30 da noite e fomos
direto dormir. O dia tinha sido daqueles que
pode-se chamar de perfeito se não fosse a pizza,
mas tudo bem. Provavelmente amanhã iremos
inaugurar o barco, pois o céu está completamente
estrelado.
 |
 |
| Pedras
gigantes escondem o local dos canhões
além de fazerem uma barreira natural de
proteção. |
Os
canhões rodavam num trilho circular e
eram fixados numa base no centro do
círculo e foram removidos ao término da
guerra. |
 |
 |
|
De
dentro do posto de observação avista-se
qualque coisa que se aproxime da baía. As
paredes tem 50 cm de puro concreto. |
Soldada
rasa Celia prestando continência ao General
Roger no posto de observação. |
 |
 |
|
Vista
do terraço no posto de comunicação |
O
posto de observação visto do posto de
comunicação. |
Magnetic Island,
segundo dia
Amanheceu
nublado e
isso me deixou desolado, pois hoje seria o dia da
estréia do bote inflável, mas do jeito que o
tempo está feio e
ainda por cima com esse vento, vamos ter que adiar. Tomamos
um café da manhã reforçado com cereal, banana,
tangerinas, e tudo mais que tínhamos direito. Os
Possums não incomodaram mais e vamos manter a
estratégia da mesa virada de lado. Pelo menos
tinha uma coisa de bom, não estava chovendo. Hoje
completou a primeira semana de viagem, e ligamos
para casa para saber se os "já criados" (filhos
grandes) estavam bem ou se precisavam de alguma
coisa. Tudo sem problemas. Fomos no Internet Café
do Caravan Park para os emails, e aproveitamos para
ver o mapa de satélite sobre o tempo. Era
desanimador... Novamente uma nuvem gigante de mais
de 3000 Km de comprimento por 500 Km de largura
cobria tudo ao nosso redor. A nuvem ía desde Cooktown até Bundaberg. Com
certeza não iríamos ver a cara do sol por muito
tempo.
O
comentário no Camping
era sobre o
tempo. Nosso vizinho Suiço disse que mora lá há 8
anos e nunca viu tanto frio e tempo ruim
quanto nesse inverno. Ele trouxe uma tabela de
chuvas de cada mês nos últimos 5 anos, e nesse
mês havia chovido o dobro do que qualquer outro. Muitas pessoas arrumaram as
coisas para ir embora e o camping ficou com
metade da ocupação. De qualquer forma, volta e meia o sol dava
uma olhadinha por dentre as nuvens e resolvemos ir
pescar na Picnic Bay. Sete anos atrás, pegamos um
monte de peixes a ponto de quase encher um balde.
Fomos bem devagar pela estrada apreciando a
paisagem, e revendo as praias que estivemos antes.
Todas sem exceção são muito bonitas
mesmo num dia sem muita luz como esse.
Chegando na
Picnic Bay, fomos preparar o material de pesca e comprar
isca numa pequena loja de pesca. Perguntamos ao
dono se andavam pescando muitos
peixes, e ele respondeu que não. Disse que a água do mar perto da praia
fica mais doce, e os peixes se afastam da praia. Andamos toda a extensão do pier e haviam
5
pessoas pescando. Passei olhando dentro dos
baldes dos intrépidos pescadores e não tinha nada digno além de uma
cocoróca ou outra, que aqui chamam de Bream.
Fomos para o lado esquerdo do pier, e em volta de
um pilar tinha um cardume de Hering, que como
sardinha, são deliciosos passados na farinha, e
fritos com espinha e tudo. Troquei o anzól por
uma garatéia para com movimentos bruscos de
baixo para cima, eu tentar fisgá-los. Já
tínhamos pego 2 Herings, quando me chega um
garotão bem gordo, e joga uma tarrafa perto do lugar
que pescávamos. Reclamei e ele pediu desculpas,
mas os peixes sumiram. Comecei a ter ganas de
empurrar o gordinho dentro d'agua, mas como
poderíamos ser acusados de gordocídio
magnético,
resolvemos ir embora (apesar de que afundar ele
não ía, porque sei que gordura bóia e era o que
não faltava nele).
Fomos
andar um pouco
pelo pequeno centro comercial da Picnic Bay.
Cinco minutos depois a
Celia pediu para voltar, porque as bolhas
no pé estavam incomodando muito. Um um sujeito
que encontramos e que opera um tour na ilha num jipe
lumosine, disse que tinha visto duas
Koalas bem na frente da escola ali perto. Fomos lá conferir. Se
tinha caíram do galho,
pois só vimos passarinhos. Picnic
Bay é a última praia que a estrada chega na
ilha, e de
lá
tem-se que voltar. Assim fizemos todo o caminho
de volta bem devagar apreciando a paisagem. A ilha
é constituida de uma sucessão de enseadas, sendo
que a Nelly Bay que é a vila mais importante, tem um pequeno centro comercial,
incluindo uma bomba de gasolina além de algumas ruas residenciais para dentro. A
maioria dos habitantes trabalha em Townsville, pois
são somente 20 minutos no ferry de passageiros.
Entrei
no acesso para a
Radical Bay (outra
praia) e tinham dois caras se preparando para
mergulhar nos corais
além de um casal
pescando. A
Radical Bay fica dentro do parque marinho, e não
se pode pescar
lá. De qualquer forma não estavamos afim de dar
uma de polícia, e deixamos o casal em paz (a
maioria dos Australianos iría com certeza
reclamar com eles). Fomos caminhar descalços na
praia, assim as bolhas da Celia não gritariam
mais. Haviam muitos galhos secos na areia, mas vi
uma coisa que me interessou muito mais. Haviam
centenas de "pedra pomes", aquelas
pedras que bóiam na água, e não
acreditei em encontrá-las lá. A história é a
seguinte: Há um ano atrás, um vulcão submarino entrou em
erupção perto das Ilhas Fiji, e do nada surgiu uma ilha
no meio do mar. Uns Australianos que passavam por
perto em um veleiro presenciaram todo o ocorrido.
Eles fotografaram tudo, inclusive o mar ficando
sólido de tanta Pedra Pomes boiando, e que se
extendiam até onde a vista
pudesse alcançar. Diante de mim nas areias da
praia de Radical Bay, estava um bom lote dessas
pedras. Elas levaram mais de um ano boiando no
oceano até chegar na Austrália, e o cheiro forte
de enxofre ainda estava presente. Coletamos as melhores
como souvenir, pois representam a formação da
ilha mais jovem do planeta. Pelo certo não
poderíamos pegá-las já que estávamos num parque
nacional, mas achei que não ia ter problema, porque na verdade
aquelas pedras são alieníginas à ilha, e
poderia poluí-la com enxofre. Pelo menos essa
seria a desculpa que iríamos dar ao Ranger caso ele aparecesse
(se quiser saber
mais sobre o episódio do veleiro, e ver fotos do
mar coberto de pedra pomes clique
aqui)
Voltamos
ao Camping
e passamos o restante da tarde, fazendo algumas
tarefas que estávamos devendo, como por exemplo,
atualizar no computador esse website. Claro que se o Suiço
gente boa não viesse a cada 10 minutos
puxar papo, mandando minha concentração para o
beleléu. Havia também uns periquitos que resolveram
pousar na tela do
computador. As garras afiadas podem fazer um bom
estrago na tela, e delicadamente com um tapa,
insinuei que ele fosse procurar a turma dele.
Decididamente o trabalho não foi produtivo. Para o jantar fizemos um
"peixe tempura"
que compramos no supermercado acompanhado por
couve flor, brócoli, cenoura e batatas. Mais uma
vez estava à nivel de restaurante. Vimos um DVD e
fomos dormir.
|
|
 |
 |
| Panorama de
2 fotos emendadas - Radical Bay |
Jipe
Lumosine |
Magnetic Island,
terceiro dia
Se você não tem interesse
em
saber sobre um tópico bastante polêmico na
Austrália, que muito Australiano não gosta nem de
tocar no assunto, então é melhor pular essa
página, pois não tem nada de viagens e sim versa
sobre
uma conversa muito interessante que rolou no
Caravan Park. No
oitavo dia choveu o dia inteiro
e praticamente não saímos do local e nem tiramos fotos. Passamos a tarde
toda conversando com o vizinho Suíço sob o nosso
toldão, e o assunto variou para a Ilha vizinha
chamada Palm Island, uma reserva
Aborígene. O conteúdo da conversa é bastante polêmico, quase um
tabu, e não sabemos o quanto de verdade tem. De
qualquer forma vamos reproduzir mais ou menos o
que foi conversado.O
assunto começou com uma observação de
nossa parte de que não
havíamos até o momento visto muitos Aborígenes nas
cidade em que passamos. Na viagem anterior vimos muitos, mas
nessa viagem,
até agora só dois.
| -
Onde estão eles? Perguntei. |
| "Estão
morrendo", respondeu o Suiço |
| -
Mas morrendo de quê? |
| "De embreaguês e
depressão!" |
| -
Mas porquê? Se o Governo
Australiano destina milhões de
dólares anualmente para fazer com que saiam desse
ciclo. Ele me falou uma coisa que jamais imaginei,
e que me abalou seriamente, pois consegui entender
o problema que simplesmente na minha concepção
antiga não fazia sentido, mas agora faz, e o pior
de tudo, não vejo solução. |
| - O
Suíço me perguntou se eu sabia como os
Aborígenes eram antes dos Colonizadores chegarem,
e minha resposta fez com que ele abanasse a
cabeça negativamente. |
| "Ele contou que para
qualquer pessoa entender o problema Aborígene,
primeiro tem que entender que nenhum ser humano na
face terra jamais enfrentou condições tão
difíceis e sobreviveu. Nenhum povo por mais de
40.000 anos conseguir viver exatamente com os
mesmos conceitos e crenças. Eles conseguiram
isso por dois motivos: O fato de serem nômades, e
por causa das crenças, pois apesar de jamais
terem escrita, conseguiram passar toda a
filosofia de vida e ensinamentos de geração à
geração através de desenhos na pedras e
estórias contadas aos mais novos." |
| - Mas e daí? Perguntei, o que isso tem
isso à ver com o fato
de estarem morrendo? |
| "Porque na cultura deles, simplesmente
qualquer outra maneira de se viver não interessa.
O que interessa, é a liberdade que eles tinham e
agora perderam, e por isso estão deprimidos" |
| - Como
assim, perguntei? |
| " É que eles eram
nômades e extremamente espiritualistas. Por
exemplo já aconteceu de se dar uma casa nova para um
Aborígene, e a primeira coisa que ele vai fez foi
retirar todas a janelas e portas, jogar o fogão
no mato e fazer uma fogueira no meio da sala com a
madeira da cama, para dormir no chão. É como
certos pássaros quando presos em gaiola, morrem.
Os Aborigenes jamais tiveram a concepção de
casa, nem mesmo de palha, exatamente por serem
nômades,
e jamais fizeram cultivos ou coisa assim, pois eles
usavam um lugar até não ter mais comida, e se
moviam para uma área adiante. Eles não viviam em
sociedades organizadas, mas em grupos familiares,
e um grupo não tinha a mesma linguagem falada do
outro, muito menos propriedade fixa, pois as
terras eram de todos. Cada grupo perambulava por
sua própria trilha e praticamente não haviam
conflitos entre grupos. Eles se respeitavam e
trocavam conhecimentos." |
| - Eram
bem primitivos, eu falei!... |
| Não,
Não,...na concepção Aborígene nós é que
somos primitivos, pois precisamos de roupas para
proteger nossa pele, temos que viver em casas para
ter um local de referência e abrigo, e dirigimos
carros para ir comprar comida, além de termos que
trabalhar para pagar tudo isso. Para um
Aborígene, a vida é como estamos agora, ou seja,
debaixo de um toldo em meio à natureza
conversando enquanto a chuva cai. Ser der fome, a
gente mata um Possum faz uma fogueira e assa o
bicho. Quando não tiver mais Possums, a gente se
muda para a próxima praia, entendeu? São dois mundos diferentes, e eles não querem e não
precisam aceitar o nosso. Mas nós estamos sempre
tentando impor o nosso à eles achando que
estamos fazendo o bem. A concepção de primitivo
não existe para eles, tal qual a concepção de
ontem ou amanhã, pois nem palavras para definir o
ontem ou amanhã no vocabulário deles existem. São conceitos criados
por outros povos, não por eles entende?! |
| - Balançei
a cabeça afirmativamente, e o Suíço
continuou... |
| Tudo o que você acha sobre os
Aborígenes, foi formulado por coisas que você leu,
viu ou escutou, o seu julgamento é feito no seu
ponto de vista em relação a sociedade que você
vive e não na deles. Se você fosse mandado no
tempo para uma aldeia "primitiva"
provavelmente você iria querer organizá-la de
acordo com os parâmetros que você tem hoje,
como por exemplo, eleger um chefe, distribuir
tarefas, estabelecer diciplinas, etc..etc..No
ponto de vista Aborígene isso não faz o menor
sentido e não tem nenhuma ultilidade prática. Na
verdade nem o uso da roda seria interessante para
eles, pois
eles não têm nada para carregar. |
| Eles
só sabem viver dessa maneira faz mais de 40.000 anos, e
se você tentar forcá-los no chicote, eles
simplesmente não vão se intimidar, e vão se mudar
de local. Esse é um dos motivos que eles
desapareceram de muitas cidades. Não se sentem
bem lá. No ponto de vista Aborígene, o refugio
seguro é em qualquer lugar, seja deserto ou não,
qualquer parte da Austrália, onde não exista
outra cultura para forçá-los a nada, pois não
têm o conceito de propriedade, seja de imóvel ou
terras. Qualquer terra é sagrada e é de todos,
pois é ela que sustenta a vida e não deve ter
dono. Os Aborígenes não construiam casas, eles se abrigavam das intempéries em
qualquer local natural que fosse adequado, seja
uma caverna, debaixo de plantas, ou cavando um
buraco no chão. |
| -
E qual a solução? Perguntei... |
| Difícil
solução. Nos dias de hoje para nós seria impossível
aceitar esse sistema de vida, e do lado deles eles
não querem o nosso. Quando o governo dá escolas,
casas, remédio, dinheiro ou qualquer tipo de
"ajuda" só faz aumentar a discrepância
entre dois tipos de conceitos totalmente
diferentes. Por isso é que vivem bêbados com o
dinheiro que ganham do governo. O governo vai e
proíbe a bebida só para eles, e com raiva, eles vão e espancam
as mulheres e crianças. O governo gasta mais para
protejer as mulheres e crianças, e eles usam o
dinheiro para comprar mais bebida, por aí vai...
Estão sempre com um olhar distante no mundo
estranho que presenciam ao qual dificilmente vão se
integrar. |
| -
Entendi, repliquei... |
| Junte
a isso, o fato da "Geração Roubada" (Lost
Generation) que ocorreu entre 1930 e 1970, quando
as autoridades da Austrália seguestravam crianças
Aborígenes para afastá-las dos pais e da vida
que levavam. A idéia
era quebrar a resistencia de integração
emocionalmente, sob o argumento de que as crianças
iriam ter boa educação e seriam bem cuidadas com
os brancos. Na
época, o governo pensava que se criassem as
crianças no conceito ocidental, quando elas se
tornassem adultos, iriam estar completamente
integrados à sociedade atual. Para
isso, separaram irmãos e mandaram um para cada estado diferente para
nunca mais serem vistas pelos pais e parentes. Para
o governo o tiro saiu pela culatra. Isso só agravou a
indignação, a tristeza, e a depressão
deles. Para
saber o tamanho do estrago, dizem que hoje não
existe uma única família Aborígene sem
alguém na família ou ancestral que não tenha sofrido a
separação, e muitos não sabem para onde
parentes foram mandados para tentar uma reunião. Entende a
dimensão do problema?! |
| -
Concordei
com o Suíço em certas coisas, e outras não,
Afinal, essa estória estava sendo me contada por um
não Aborígene, e primitivamente falando, eu
acabei ficando sem opinião. |
A
chuva ainda caia,
e depois de checar e re-checar o mapa de satélite
mais uma vez, chegamos a conclusão de continuar
viagem no dia seguinte. O noticiário na
televisão falava que um centro de alta pressão
estava impedindo que as frentes frias subissem e
por isso a umidade dos trópicos estava se
condensando e causando o
mau tempo. A previsão era de mais 3 ou 4 dias de
chuvas.
Continue
lendo - Semana 02
Voltar
ao Índice do diário de viagem
|