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| Viajando
a Austrália: |
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| Brisbane
à Cairns |
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| "Segunda
Semana" |
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Magnetic
Island até
Innisfail - 261 Km
Colocamos
dois dias juntos
porque iríamos sair da Magnetic Island no quarto
dia, mas acabou que tivemos que trabalhar em
vários contratos comerciais que precisavam de
resposta urgente. Por isso, passamos o dia inteiro tanto
no telefone como no computador. Em outras
palavras, não rolou nada de interessante no
quarto dia na Magnetic Island, só trabalho e
chuva.
No
quinto dia
na Ilha, acordamos cedo e ainda chuvia fino,
ligamos o rádio e escutamos que Brisbane estava
com temperatura de 3 graus, coisa que nunca
ouvimos falar. Pelo menos estávamos nos 16
graus, mas parecia muito menos. A previsão para a
região era a mesma, chuvas para mais 2 dias.
Quando deu uma pausa na chuva, tiramos o toldão
procurando secá-lo o máximo possível, e depois
de bem dobrado guardamos tudo debaixo da cama. Às
8 da manhã estávamos prontos para sair, mas a
próxima balsa só sairía às 9:40. O Suiço veio
perguntar se podíamos atravessá-lo dentro de
nossa Van, pois assim ele não teria que
pagar. O único problema era que nosso
bilhete falava claramente em somente duas pessoas no
carro. Ele garantiu que não tinha problema, e eu
disse que se me cobrassem extra ele iria ter que pagar.
Combinamos de nos encontrar na barca 10 minutos
antes do embarque.
Ficamos
fazendo hora
passeando na Maggie e tirando algumas fotos apesar
do dia cinza. Quando chegamos no terminal, o
Suíço já nos esperava e me disse que a balsa
estava atrasada 20 minutos. Aproveitei e fui num
supermercado ao lado comprar comida, pois a nossa
estava acabando. Comprei uns bifes de
carneiro que estavam bem magros por A$ 8, enquanto
o preço normal é A$ 15 por quilo. Quando voltei
ao carro, a Celia estava no telefone e me
confirmou dois contratos fechados. Em outras
palavras, o dia de ontem apesar da chuva foi
produtivo. Chegou a hora de partir e entramos no
carro. Veio a menina que pega os bilhetes e
perguntou pela terceira pessoa no carro. Eu
respondi que era um amigo da Ilha que ia nos
mostrar Townsville, e ela simplesmente respondeu
"No problem". Ao chegar nos despedimos
daquele Suíço simpático que sabe usar o
jeitinho brasileiro e fomos buscar algo
para comer. Já eram quase meio dia, e a fome
bateu. Paramos num McDonald e pedimos um "OZ
Burger" que vem com carne e beterraba ao invés de
queijo, e depois pegamos a estrada.
Sabíamos
que não iríamos muito
longe por causa da hora, e a princípio o destino
seria Mission Beach, um outro lugar espetacular. A
estrada estava muito boa e com o vento por trás
chegamos rápido. Não chovia mas estava nublado.
Paramos no Tourist Information e pegamos mais
folhetos. Decidimos por causa do tempo continuar mais para o Norte,
e parar em Mission Beach na volta. Quando já eram
quase 5 da tarde eu estava cansado de dirigir, e resolvemos
pernoitar num Caravan Park perto de Innisfail.
Essa cidade foi bastante danificada ano passado
pelo Furacão Larry, no dia 20 de Março de 2006,
e os ventos chegaram a 240 km/h ou categoria 4
(uma a menos da máxima). Apesar de terem
consertado quase tudo o lugar ainda mostra sinais
da destruição, tais como árvores podadas, e
telhados ainda em recuperação.
Essa
região é a maior
produtora de bananas da Austrália. São áreas
enormes com plantações de se perder de
vista, e que foram completamente destruídas pela
força dos ventos. Para se ter uma idéia do
estrago, o preço da banana chegou à A$ 15 o
quilo poucos meses atrás. Agora desceu para
A$ 6, enquanto o preço normal é A$3. A safra já
era para ter sido colhida, mas as bananas ainda estavam
verdes por causa do frio e das chuvas. Me chamou
atenção o uso de sacos plásticos para proteger
os cachos de pássaros e insetos, e assim dar uma
aparência bonita à banana. O
Caravan Park
de beira de estrada me surpreendeu pela infra
estrutura. Tinha piscina, banheiros muito limpos,
Internet, e uma cozinha espetacular, pois quase
tudo é novo. A dona nos mostrou fotos do Ciclone
no Caravan Park, e eram de deitar cabelo de
careca, impressionante. Muitas Caravans
foram tombadas e arrastadas, ou pelo vento, ou pela
enchente que se sucedeu ao Larry. Todas as
árvores foram partidas ou voaram com raiz e
tudo. O pequeno galpão onde ficava a cozinha
decolou, e tiveram que construir um novo. A cidade
inteira passou a ajudar uns aos outros e recontruir tudo das cinzas. Por incrível que
pareça, não morreu ninguém. Conhecemos umas
pessoas que moravam no Caravan Park, a maioria
"fruit pickers" ou seja, trabalham nas colheitas da
banana e cana de açúcar, e estavam aguardando a
chuva passar para começar o trabalho. Fomos na Internet
para ver a previsão do tempo, e parecia que
Cairns e Port
Douglas iriam ter tempo melhor. Essa seria a
nossa opção de viagem para o dia seguinte. Como
sempre, fomos dormir cedo.
Para
ver um mapa e saber mais do Ciclone Larry, clique
aqui.
De
Innisfail ao Daintree National Park - 290 Km
Às
7 da manhã pegamos a estrada
de Innisfail para Cairns. Mais uma vez dia nublado
sem chuvas. Estrada boa, mas bem mais movimentada
do que o trecho anterior. Voltamos a pegar
carros rebocando Caravans andando à 65 Km por hora na estrada.
Dá
vontade de ter um canhão.
A
chegada à Cairns nos impressionou,
porque nunca chegava, ou seja, a cidade cresceu
tanto que antes levava 10 minutos desde as
primeiras casas na estrada até o centro, e
levamos uns 20 minutos ou mais, ainda mais na
hora do rush. Ficamos também impressionados
com o número de carros nas ruas e coisas novas na
cidade, indicando grande crescimento recente.
Estávamos com pouca
gasolina, e vimos um posto vendendo por A$
1,24 o litro, a mais barata que encontramos.
Depois paramos num enorme
shopping center e fomos fazer compras num
supermercado. Compramos muito mais comida que
cabia em nosso freezer, mas os perecíveis entraram
sem problemas. Aproveitei e parei numa liquor shop
para comprar outra caixa de cerveja, que custou A$
36, bem mais caro que na Gold Coast obviamente
devido ao frete. Uma vez totalmente abastecidos,
ainda passeamos um pouco pelo centro onde vimos
uma enorme estátua do intrépido Cook bem
magro, que parecia fazer uma saudação à
Hitler. A estatua é medonha.
A
estrada de Cairns
à Port Douglas tem duas fases. A primeira é um
pé
no saco, porque a cada 300 metros tem um
roundabout (rodador de trânsito sem sinal) e
exatamente quando chega-se aos 80 Km/h, tem-se que
reduzir para um novo rodador. São 12 no total.
Essa parte tem muito trânsito e requer muita
atenção. Passa-se o Aeroporto e a entrada para o
Skyrail, e depois que deixamos a cidade, a estrada
ficou bem melhor, indo
literalmente pela beira mar entre montanhas e
praias. A velocidade é lenta por causa de curvas bem
fechadas, e se o motorista bobiar vai parar na
areia ou dentro d'água. Tem vários mirantes pelo
caminho, paisagens bonitas, e lindas praias
desertas, mas todas
com o mesmo aviso no
acesso..."Crocodilos de água salgada habitam
essas águas o ano todo". Outra placa avisava
sobre perigos com águas -vivas, ou seja, tudo
muito bem, tudo muito bonito, mas entrar no mar
só se for à bordo de um submarino.
Chegamos
em Port Douglas
com o céu meio encoberto, e entramos na cidade
para dar uma olhada. Aproveitamos e fizemos um
lanche e compramos uma torta de crocodilo para o
jantar. Resolvemos seguir mais adiante até o Cape Tribulation, nosso destino
final. Acima do cabo, só em veículos 4 x 4,
pois o asfalto literalmente acaba, apesar de haver
uma outra estrada asfaltada até Cooktown que sai
da cidade de Mossman. Essa estrada dá uma volta
de mais de 250 km pelo interior, e não nos atraiu
em ir visità-la. Após Cooktown não existe mais
estrada, somente uma trilha cortando terras
Aborígenes. Logo que saímos de Port
Douglas para Mossman, a estrada ficou
praticamente deserta. Quase não passavam mais
carros. Depois de Mossman então é que não
cruzamos praticamente com mais carro nenhum.
Passamos um posto de gasolina que tinha uma placa enorme
dizendo..." Não há mais gasolina adiante,
esse é o último posto".
Tínhamos enchido o tanque em Cairns e pelo
número de quilômetros no mapa, dava de folga para ir e voltar duas
vezes, e por isso seguimos
adiante.
A
travessia do Daintree River
tem que ser feita numa balsa. O rio é repleto de
crocodilos de água salgada e existem placas em
todos os lugares para te lembrar disso. Os locais
dizem que os bichos são tão protetores de
território, que atacam até barcos, algumas vezes
danificando hélices com a potente mordida.
Perguntei para a Celia se ela queria experimentar o
bote inflável alí, e ela resmungou que eu estava
querendo me ver livre dela. A travessia custou A$
16 ida e volta e leva 5 minutos, sendo que uma
placa enorme avisa:" É proibido
sair do veículo por razões
crocodilesticas". Perto da balsa existem
várias companhias oferecendo tours para ver
aqueles
monstrengos anabolizados, mas todas tinham preços de
entortar cartão de crédito.
Quando
chega-se do outro lado
os crocodilos choram, pois ninguém caiu do barco.
Após o desembarque a estrada afina de tal
jeito, que dois ônibus em sentidos opostos vão ter
que cruzar bem devagar senão os espelhos vão pro
espaço. A vegetação abraça a estrada até
mesmo por cima, ficando escuro em pleno dia. A
impressão é que estamos atravessando um túnel de
folhagens. Sem dúvida foi uma das estradas mais
bonitas que já vimos, se não fosse o fato de
ser estreita e requerer muita atenção. Uma placa avisava que
estávamos entrando no Daintree National Park,
a
floresta mais antiga e diversa do mundo. Essa
floresta tem mais variedades
de plantas por metro quadrado que em qualquer outro
lugar no planeta, incluindo plantas raras e
únicas. Outra
placa pedia moderação na velocidade por causa de
Cassoaries cruzando a pista. Cassoaries, são aves
que não voam, parecidas com uma avestruz,
sendo que um macho adulto pode chegar a atingir dois metros de
altura. Foram quase extintas, mas são protegidas
pelo governo atualmente.
Seguimos devagar pela difícil estrada
de curvas bem fechadas, e placas indicavam; Curva de 30
km/h à direita, curva de 20 km/h à esquerda. Brinquei com a
Celia dizendo que se continuasse nesse rítimo, na
próxima curva a gente iriía ter que descer do
carro e fazê-la à pé. Paramos num mirante com uma linda
vista do delta do rio Daintree, e haviam muitas
borboletas no local, principalmente as azuis
chamadas de Ulysses.
Não
sabíamos onde íamos
ficar
a noite e não tínhamos pesquisado direito sobre
acomodações ou Caravan Parks na área, mas
sabíamos
que existia um local para camping no Cape
Tribulation, só que sem energia elétrica nos
"sites".
Foi quando passamos por um lugar muito bonito, e
que tinha uma placa dizendo "powered sites
for caravans". Paramos e fomos indagar. O
preço era de A$ 24 por noite e resolvemos ficar.
A mulher depois que soube que queríamos o "site" por
somente uma noite, fez cara de peido, mas não
falou mais nada. Fomos para o local que ficava à 300 metros da
recepção por uma estradinha de concreto e com mata fechada por cima. Uma
clareira na mata denunciava o local. Existiam 4
sites com plataformas de concreto, uma área para
barracas, e duas cabines de madeira. Só tinha um
site vago que era exatamente o nosso. Logo
descobrimos porquê a mulher da recepção não
falou mais nada. O fato é que fora da pequena plataforma de
concreto, tinha um belo gramado, só que em baixo
era pura lama. Em outras palavras, você pisava na
grama e afundava na lama. Outro problema, foi
que nosso cabo de eletricidade era curto para
chegar no poste indicado, e por isso tive que
passá-lo por baixo do carro do vizinho. Para tal
tive que ficar na clássica posição que
Napoleão perdeu a guerra, e o resultado foi que atochei meus
cotovelos e joelhos na lama também.
Celia foi dar uma volta
enquanto eu fui pro banho, e depois improvisei uma
tábua de madeira para fazer de ponte até a
plataforma. pois assim não correríamos o risco
de pisar na lama. Botei mesa e cadeiras na pequena
plataforma, e mesmo ameaçando chuva, eu não iria
entrar na lama novamente para montar o toldo. Abri uma cerveja,
e sentei na cadeira contemplando a vista ao
nosso redor. Fora a lama, o resto era muito lindo, com
árvores espetaculares e plantas das mais estranhas
possíveis que nunca havia visto, nem no Amazonas.
A
Celia voltou do passeio e disse ter visto uns Cangurus numa trilha. Ela chegou a entrar na
trilha, mas logo teve que parar porque estava
muito escuro lá dentro e a trilha tinha virado um
córrego. Estavamos sentados conversando, quando tive a supresa
do dia. Cochichei baixinho:- Tem uma Cassoary com dois
filhotes bem atrás de você. Fiquei sabendo por
minha culta esposa, que só Cassoary macho
cuida dos filhotes. Falei para ela não fazer movimentos bruscos, pois
esse bicho ataca pulando com as patas no pescoço
da vítima. Os pés deles são enormes, muito maior que uma
mão humana, com 3 dedos bem grossos, e unhas
longas e afiadas que nem gilete. Um filhote veio
bem perto e dava pra ver que o pai estava me
fitando nos
olhos. Fotografei com movimentos em camera lenta
para não assustá-los, e depois eles foram embora
continuando a ciscar o solo. Soube depois,
que a última morte registrada por Cassoary na
Austrália foi em 1926, quando um rapaz de 18 anos
ameaçou um Cassoary com filhotes, e o bicho pulou
na jugular dele. Ele sangrou até
a morte. É extremamente perigoso alimentar
Cassoaries, e o pão por algum motivo pode matar elas.
A
noite caiu,
e todo o pessoal que estava lá, menos um casal, foi para a cozinha
comunitária. Lá tinha um fogão à lenha e
uma boca industrial de gás para uso dos
campistas. A mesa era de madeira, bem longa e com bancos fixos nos
dois lados. Cada qual fez sua bóia, e depois das
apresentações ficamos batendo papo regado à
cerveja e vinho. As conversas se estenderam até
quase meia noite, cada qual contando suas
experiências na Austrália. Um casal da nossa
idade morava na estrada, e viajava o tempo todo
para
onde tivesse trabalho em colheitas ou fazendas. O
outro casal era da Alemanha e estava no programa
de trabalhar e viajar (Working Holliday), também
nas colheitas. O último casal era da Inglaterra,
também no mesmo programa. Ele tirou carteira para dirigir
ônibus e ela trator, e ambos tinham tantas ofertas
de trabalho que não conseguiam sair de Port Douglas. Foi uma
noite de ótimas conversas e no final resolvemos
todos os problemas do mundo. A propósito, nosso jantar
foi torta
de carne de crocodilo que compramos em Port
Douglas, e esquentamos com bandeja
de alumínio e tudo em cima do fogão de lenha. A
massa estava uma delícia, mas a carne de
crocodilo não tinha
gosto de nada. Papelão talvez.
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| Placa
na entrada do Parque. |
Cassoary
- macho devido a crista |
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| Entre
Novembro e Maio a área é infestada de
Box Jellyfish, a água viva mortal. |
Garrafas
de Vinagre estão disponíveis nas praias
para uso em queimaduras de água viva. Se
for uma Box Jellyfish de pouco adianta. |
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Crocodilos
de água salgada chegam à 7 metros e chegam
a pesar 1 Ton. O sujeito que está
pescando está recuado uns 5 metros do
mar, mas mesmo assim corre risco de ser
atacado. |
Cape
Tribulation até Port Douglas - 138
km
Acordamos
às 8 da manhã
com fome, e comemos uma tijela de leite
com cereais e banana. Nos despedimos de nossos
vizinhos e partimos para o Cabo Tribulation. O
cabo tem esse nome porque Tribulation é
sinônimo de
"problemas" e foi lá que eles
começaram
para o intrépido. A história é a seguinte: O
Endeavour, barco do Cook, achou que estava
molhado demais e resolveu sair do mar indo
estacionar em cima de um recife de coral. O barco
começou a afundar, e ía afundar se o imediato
não vestisse o casco com uma vela,
como se fosse um fraldão. Se o barco tivesse
naufragado, talvez na Austrália hoje se falasse
Francês e meu nome seria Rôgê, ao invés de
Roger, pois os franceses já estavam com um pé
na Austrália. Para chegar em terra firme foi uma dificuldade
tremenda, e por ter chegado e salvado a
tripulação, o Cook foi promovido de tenente
para capitão. Eles passaram meses para
consertar o navio na localidade que hoje
chama-se...Cooktown, em homenagem claro, ao
intrépido.
A
estrada continua
linda e estreita, mas dessa vez vai tão perto do
mar que dá para ver os corais. Tem uma pequena
serra a ser transposta, e todo o trajeto é feito
praticamente num túnel de florestas em ambos os
lados da estrada. Você sabe que
chegou ao Cape Tribulation por causa de uma meia
dúzia de construções, e pelo motivo de que a estrada
acaba sem aviso prévio.
Dalí a estrada vira uma trilha de 120 Km até
Cooktown e só dá para ir de carro 4x4, e mesmo assim,
só em dia seco. Cape Tribulation era o nosso destino final indo para o
Norte, e tínhamos chegado. O
dia continuava nublado e começou uma chuva
fina de dar ódio em anjo. A
primeira coisa que fiz foi olhar para o odômetro e
anotar quantos quilômetros havíamos rodado desde que
saímos. Total: 2.251Km.
O
Cabo fica à uns 300 metros
do lugar onde se estaciona, e tem uma trilha para um mirante
lá em cima. Chegamos no início da trilha e haviam duas placas de aviso. A
primeira: "Cuidado com um Cassoary
macho que
anda intimidando as pessoas. Pode ser
agressivo". A segunda placa dizia...: "A
trilha para o mirante está interditada para
reformas - volte em breve". Como volte em
breve?! Esses caras
acham que meu carro tem turbina e voa, como assim,
voltar em breve?! Que sacanagem! Agora só
falta
encontrar o macho Cassoary, o tal agressivo!. Por sorte
encontramos foi uma
floresta de cipós onde a minha mulher resolveu se
pendurar (não me surpreendou, pois ela adora
banana). Depois das macaquices, pegamos a trilha para a
praia e deu pra ver que a praia era linda se
não fosse aquele tempo miserável. Esse lugar é
único no
mundo, porque a montanha e a floresta se beijam na praia, e logo na frente tem muitos corais.
Teoricamente, não deveriam existir corais em lugares com
baixa salinidade
devido a água doce dos inúmeros córregos, mas
esse lugar é exceção no mundo. De qualquer
forma, para não fazer
do local um paraíso, Deus primeiramente mandou
uma chuva para nos sacanear, e botou um monte de
peçonhentos e plantas carnívoras na floresta.
Ainda não contente, colocou polvos e conchas
mortais nos corais, águas vivas que matam em 5
minutos, isso sem falar dos crocodilos gigantes
tanto nos córregos quanto no mar. Para não ser chamado de
muito severo, Deus colocou
também algumas espécies não tão perigosas,
como tubarões, que comparados ao resto parecem freiras de
convento. Com tudo isso o lugar
é mágico.
Sem
mais nada para fazer,
fomos na "cidade" pois onde estamos, mais
de duas casas é considerado uma vila, e mais de 5
uma cidade. Na city tem uma construção de palha
que é o centro de informações
turísticas. Ao
lado, uma farmácia dobra como loja de souvenir e
cujo balconista é médico, ou seja, você compra
uma camiseta escrita "Eu sobrevivi ao Cape
Tribulation" e ganha uma aspirina como
brinde. Mais adiante um bar, restaurante, e pub,
dobra como banco, pois
tem uma máquina de sacar dinheiro (ATM). Mais para
dentro na direção da praia, tem uma área para
camping, e outra com cabines. Do outro lado da rua tem um hotel no
meio da mata. Pronto, a cidade foi descrita.
População: 10 x 1, ou seja, 10 bichos mortais
por habitante. A city é o ponto de
encontro, e de lá saem diversos tours
interessantes tais
como, "Ver se os crocodilos só mordem
quando fecham a boca", "Pesca de
Oceano sem virar isca", "Mergulhos nos
Corais com ou sem tubarões", "Ver se Cassoary
vai a manicure", " Identificar plantas
carnívoras pelo tato", "Passeios
noturnos para ver se a cobra mais venenosa do
mundo come o sapo mais venenoso do mundo",
ou o melhor tour de todos, " Vôo panorâmico de
ultra-leve",
onde o aterrorizado turista sentirá um alívio
enorme de não estar mais pisando no chão.
Voltamos
devagar
parando em alguns locais para apreciar a beleza, e
chegamos à conclusão que o local é lindo
demais! Mas acho que deveria ser visitado entre Setembro e Outubro,
quando a temperatura é mais quente e não costuma
chover. Nessa época do
ano ainda não tem água viva e pode-se nadar no
mar quase sem se preocupar, a não ser por uma
possível disputa entre um tubarão e um crocodilo,
por sua pessoa. Chegamos num local onde tem uma caminhada por
dentro da mata. Uma espécie de ponte de cordas
que acaba num mirante e é muito popular.
Demoramos para encontrar vaga, devido aos ônibus de
turismo estacionados no local, mas logo depois
conseguimos uma. Entramos por uma loja de souvenir
e veio a surpresa, custava A$ 50 por cabeça para
a tal caminhada. Nos recusamos à pagar esse
preço peçonhento e
continuamos de volta para a balsa. Chegamos em Port Douglas no meio
da tarde e ficamos num Caravan Park que já
conhecíamos da outra viagem. A
localizaçãcao era bem legal, cerca de 10 minutos
a pé do centro da cidade ou da praia. Arrumamos a
Van e batemos um pouco de papo com um vizinho, e
em seguida fomos preparar o jantar. Fizemos uma
galinha com molho satay (de amendoim), batatas e
arroz, e ligamos a TV para as notícias. Segundo o noticiário,
houveram muitas mortes no mundo, mas o curioso é que em Cape Tribulation não morreu
ninguém. O reporter do
tempo nos fez sorrir de orelha à orelha. A
previsão excluia chuvas apesar do tempo nublado,
mas falava que depois de amanhã seria Sol. A temperatura estava
nos 27 graus, e pela
primeira vez usamos o inútil ventilador para
refrescar um pouco o interior do nosso pão de
forma branco.
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Plantas
carnívoras - Não alimente elas com seu
dedo. Elas podem gostar e comer os outros
todos.
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Acabou
a estrada chegamos!!! Sair dali é outra
estória.
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Camping
no Cape Tribulation
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| Se
o carro quebrar esse é o unico mecânico e
reboque do local. Nunca vire inimigo
desse sujeito. |
Pântanos
entre montanha e praia. Olha a cobra
venenosa aííí gente..Squidum, squidum,
bis |
São
e salvos no Caravan
Park de Port Douglas. |
Port Douglas
Decididamente
o tempo melhorou
e pela primeira vez em muitos dias acordamos
com um nascer do Sol espetacular. Ainda não estava
totalmente limpo, e volta e meia o céu fechava
novamente, mas pelo menos nem sombra de chuvas.
Fizemos panquecas com manteiga, geléia de morango
e queijo, e saímos para passear a pé.
A
praia estava cheia
de gente se exercitando, gente caminhando, outros correndo, um grupo de Yoga, e alguns casais de
turistas passeando de mãos dadas. Vimos um senhor
colocando cadeiras para alugar e fomos tirar
nossas dúvidas sobre nadar naquela praia. Ele disse que nessa época
do ano não tem problema, mas falou que uma semana antes
viu um crocodilo nadando perto da praia.
Perguntamos se haviam ataques registrados, e ele
disse que não. Explicou que os "crocs" passam por
ali somente na época de acasalamento, quando vão
procurar uma fêmea em outro rio que deságua no mar. Ele apontou para umas
bóias perto da areia, e disse que poderíamos nadar sem problemas,
ali tinha rede de proteção. Mas ainda estava um
pouco frio para um mergulho.
Resolvemos
subir o morro
no final da praia, que segundo nosso folheto, tinha
um mirante em cima. O dito era bastante inclinado
e a trilha ía em longos zig-zags. Chegamos no topo,
e estava preparando a camera para "aquela foto", quando o
tempo começou a nublar. Foi como uma luz que vai
se apagando, se apagando, e apagou. Fiquei
"P" da vida. Só tinha uma faixa azul no
horizonte e esperamos mais um pouco para ver se o
tempo abriria de
novo. Nada. O lindo
visual da praia saiu uma porcaria na foto (foto). Vimos
os dois Catamarãns para 400 pessoas cada, partirem para
a Grande Barreira de Corais e perguntei para a
Celia..." - Será que as pessoas veem graça
em visitar a
Barreira de corais com mais outras 800 pessoas? Nós fomos na
Barreira de corais com 15, e achamos uma multidão, quanto mais
com esse povo todo.
Ficamos imaginando esses 800 mergulhadores de
primeira viagem entrando em pânico porque viu um
polvo dando-lhe uma "banana" com os oito
tentáculos, e eles se assustando e pisando nos
corais. E isso todos os
dias, 364 dias por ano. O que salva a Barreira é
que determinaram uma única área para visitas. Em
outras palavras, o barco vai ao mesmo local todos os
dias, e 800 turistas ainda por cima acham uma
maravilha ver corais quebrados. Imagina se eles
vissem o Fitzroy Reef.
Descemos
do morro
e fomos passear
no centro de Port Douglas. A primeira
coisa que me chamou atenção foi a quantidade de prédios de 3 ou 4 andares que
estão sendo construindos. De onde vem essa grana,
perguntei à um sujeito de capacete que trabalhava
na obra. Ele disse que são investidores Japoneses,
comprando para alugar por temporada para turistas.
Existe uma linha direta de Tokyo à Cairns, e os
Japoneses vêm em massa nas férias. Continuamos
nosso passeio, e paramos num Internet Café para
colocar
a correspondência em dia. O local dobra como
locadora de DVD, sorveteria, e tinha um enorme
baú cheio de livros usados, no qual você troca
seu livro caquético de tanto lido, por um outro
mais caquétito ainda, bastando para isso
depositar A$ 1. Tinha livros em quase todos os
idiomas do mundo. Depois fomos comprar
comida num supermercado, incluindo repelente para
mosquito. Pela primeira vez em toda viagem
levei duas dentadas covardes pelas costas.
Continuamos
o passeio
olhando os Cafés que estavam cheios de turistas, e fiquei intrigado com a
quantidade de gente tomando cerveja em barzinhos
às 10 horas da manhã. Metade do estabelecimento
tomava café da manhã e a outra metade "
Booze" que na gíria australiana quer dizer
birita. Fomos ao parque central da
cidade onde há
relíquias da guerra, e ficamos por um bom tempo
vendo bombas, canhões, minas, e outras armas
antigas. A Celia comprou uma sandália
(não
eram as legítimas) e depois sentamos para tomar
sorvete. A temperatura estava muito agradável e
ficamos por um tempão olhando as pessoas passarem
na rua. Gente de todos os tipos, feias, medonhas,
bonitas, gostosas, não tanto, cabeludas,
carécas, tatuadas, enfim, um verdadeiro
zoológico dos trópicos. Haviam também muitos
gays, pois Port Douglas tem acomodações
específicas e tours para esse segmento de
mercado. Estávamos andando desde às 8 da manhã.
Meus calcanhares voltaram a doer, e minhas costas
também não estavam bem. No dia que ficamos
conversando no Caravan Park, sentei torto no banco
de madeira por um tempão e dei um jeito no cox.
Chamou atenção um hotel em estilo Vitoriano, com bandeiras de
vários países do mundo, incluindo a do Brasil e
a da Argentina, lado a lado.
Voltamos
para o Caravan Park,
passando por ruazinhas interessantes, com mais cafés, bares,
lojas de souvenirs, de tours, e comerciais. Sempre tinha movimento na rua. Quando
chegamos no Caravan Park fui direto para a cama, e peguei um livro para ler. O livro era
sobre dois Ingleses viajando a Austrália, e a parte
referente à Port Douglas era hilária. Um deles
sempre sacaneava o outro, até mesmo na hora de
comer. Quando um deles pediu um peixe num
restaurante, o outro falou que ele teria sorte se
escapasse da "Ciguatela" (toxina letal
causada por peixes que comem corais). O cara
suspendeu o prato e pediu bife, e o outro disse
que a carne alí era muito boa, pois só serviam
carne de canguru recém-atropelado na estrada. No
final o sujeito acaba comendo macarrão puro. Eles
descobrindo crocodilos, cobras venenosas, águas
vivas, vomitando no barco, e muito preocupados com
um surto de Dengue local. Era de se mijar de rir. Levantei melhor do jeito na coluna, e
passamos o resto da tarde conversando com outros viajantes
no Caravans Park.
O
assunto predileto
era o tempo, e isso estava me irritando
duplamente. Primeiro pela previsão ser de Sol e o dia estava
cinza, e segundo que por onde se ía,
tanto na cidade quanto no Caravan Park, o assunto
era o tempo. Gente falando que há mais de 10 anos
não vê um tempo tão frio e chuvoso, gente se
queixando da artrite, da orelha fria durante a
noite, e por aí vai. Tinha um vizinho engraçado, que levava o
motor de popa do barco pendurado atrás do carro
(foto), e
todo mundo que passava elogiava o novo método de
propulsão do carro dele. Quando ele saía de
carro, ele ligava o motor em ponto morto só para
as pessoas pensarem que era o motor de popa que
empurrava o carro.
Uma Kookaburra (ave australiana) pousou num poste bem perto de nós
e ficou lá por um bom tempo. Consegui fotografá-la bem de
perto.
Combinamos
no dia seguinte
de voltar para a estrada, e ir para o interior rumo ao Tubos de Lava de Undara.
De jantar comemos um "T-Bone Steak" com
salada Grega e suco de laranja. Depois do jantar fui direto para a
cama, pois a dor nas costas tinha voltado e já
estava sem posição para ficar sentado na
cadeira. A Celia ficou batendo papo com os
vizinhos até tarde.
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Kookaburra
inteligente
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Ulysses-
as borboletas azuis
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Novos
empreendimentos
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| Parques
de Port Douglas |
De
cima do morro |
Entrada
da cidade |
Port
Douglas a Innot Hot Springs - 388
Km
Levantamos
cedo e por
volta das 8:00 da manhã já estávamos na estrada
descendo para Cairns. O dia estava bem melhor com o
céu quase completamente azul. Na vinda,
passamos por essa estrada num dia bem nublado e
quase não tiramos fotos, mas agora era diferente.
Realmente é impressionante o efeito que o Sol tem
sobre as pessoas. Pegar um dia de Sol depois de
muitos dias nublados dá a sensação de se estar
nascendo de novo, e tudo fica lindo e colorido.
A
estrada estava
tranquila e como falamos antes, esse trecho vai o
tempo todo beirando o mar com lindas praias e
paisagens, mas todas infestadas por alegres crocodilos.
Paramos um monte de vezes para fotos, e
entramos numa fazenda de crocodilos que oferece
tours para visitantes. Eu não sei porque, mas
achamos que o
pessoal aqui em cima cobra bem carinho pelos
passeios. A$ 75 por cabeça, para um passeio de
duas horas. O
problema é que na maior parte do tempo, fica-se
recebendo explicações sobre como criar crocodilo
em cativeiro, o que decididamente jamais vou
fazer, muito menos na minha Van. O que estávamos
interessados, era no tour de barco no rio, que só
ocorre na última hora da visita. Perguntamos se
dava para fazer só o tour do rio por um preço mais
razoável, e a resposta foi não.
Voltamos
para a estrada,
e por uma recomendação, entramos
na pequena vila de praia chamada Palm Cove. Essa
vila fica à uns 30 Km ao Norte de Cairns e virou
um balneário turístico e de fim de semana. O
local tem muitos hotéis de luxo, cafés e restaurantes com mesas nas calçadas,
todos com sombreiros coloridos. Os cafés
estavam lotados com pessoas lendo jornal, outras
conversando, além de crianças pentelhando.
Sentamos numa mesa e pedimos um único café para
nós dois, pois pagar A$ 5 por uma xícara de
café
aguado com creme, decididamente não deixa minha
carteira feliz. Ônibus de turismo lotados de
Japoneses, todos com cartões de memória de
zilhões de gigabites chegavam a cada instante. A
Esplanade, rua que vai beirando o mar é bem
interessante, com coqueiros e um calçamento feito com
paralelepípedos cinza mesclados com uns cor
tijolo, compondo desenhos artísticos. Pensamos
em passar uma noite lá, e perguntamos por um
Caravan Park. O dito ficava na beira da
praia, e quando chegamos tinha uma bela placa
dizendo:"No Vacancy". Ainda insistimos
só para confirmar se estava mesmo lotado, mas sem
opção, tivemos que pegar a estrada. Já tinham
começado as férias escolares.
Chegamos
em Cairns e
fomos para à beira mar, pois me falaram que haviam
feito um parque novo, e que tinha ficado muito
bonito, inclusive com um belo piscinão público. A cidade de
Cairns é muito agradável
durante o inverno quando não faz muito calor, mas no
verão até crocodilo toma sorvete
para refrescar. O maior problema de Cairns é que
na frente da cidade não tem praia, mas sim um
lodo, e esse piscinão novo com certeza
vai quebrar um galho. De qualquer forma bem
perto tem praias boas e bonitas, como as de Palm
Cove. Passeamos um pouco
pelas ruas
que estavam um pouco vazias, talvez por ser
Domingo e vimos muitos turistas Japoneses e de
muitas outras nacionalidades. Ficamos conversando
sobre como a Gold Coast perdeu esses turistas, pois há
uns 5 anos atrás eles íam em massa para lá. A cidade
de Cairns realmente está muito bonita e já conhecemos bem, inclusive
fizemos duas vezes o incrível passeio no
teleférico (skyrail), que vai bem por cima da floresta quase
raspando nas árvores, até chegar na cidade de Kuranda. De Kuranda
saem passeios de trem por vales com cachoeiras
espetaculares e é muito bonito. Em Cairns, recomendamos esse
passeio
e uma ida à Barreira de Corais, mas não para a Green
Island que é mais perto da costa e custa menos,
mas não
chamo aquilo de Barreira de Coral nem que os
peixes implorem. No
mesmo local que paramos na vinda, abastecemos o carro e compramos
comida para seguirmos para Undara, onde tem os maiores
Tubos de Lava no mundo. A viagem teria que ser
feita em dois dias, e assim demos adeus à Cairns.
Mesmo
tendo feito
muitas viagens na Austrália, cometemos um erro
básico. Não perguntamos sobre as condições da estrada
que pegamos, a Gilles Highway para a cidade de
Atherton. A estrada vai da costa ao interior,
cortando caminho por dentre as montanhas, coisa
que já sabíamos. O que não sabiamos, era a forma
com que ela cortava as montanhas. Nunca que eu me
lembre, andei numa estrada com
tantas curvas tão fechadas e tão íngremes. A
impressão que eu tinha era que a qualquer momento
íamos chegar no céu. A estrada em si é boa, e tem paisagens de tirar o
fôlego, mas meu
carro sofreu coitado, os cavalos que ele tem
dentro do motor deviam estar todos com as patas
doloridas. O bicho tinha dificuldades de subir em segunda, e as vezes
fazia
longos trechos em primeira.
Paramos alguas vezes para descansar e ver
a paisagem, pois foram duas horas seguidas de
esquerda direita, primeira e segunda, numa
velocidade média inferior à tartaruga alpina. E
não
acabava nuuuunca ! Só depois descobrimos
que estávamos subindo para um planalto, e ao
invés de subir direto, estávamos contornando o
dito até chegar do outro lado. Sempre subindo.
Agora sabemos o porque do nome planalto...você
sobe que nem um infeliz só pra chegar num plano
bem alto.
Passamos
cidades menores como
Malanda e
Yungaburra,
todas bonitinhas, mas sem nada que chamasse
atenção. Vimos muitas fazendas em ambos os lados
da estrada, incluindo fazendas de ovelhas, de
criação de peixes, e muitas mais. Já
fazia frio pela altitude de mais de 1300 metros, e
entramos numa zona de nevoeiro perto da cidade de
Ravenshoe. Ventava muito, e o carro mesmo com velocidade reduzida
implorava para que eu segurasse a direção com
força para mantê-lo na pista. Do meio
do nevoeiro surgiram umas sombras estranhas, que a
princípio não dava para reconhecer. Com o
tempo entendemos que estávamos uma fazenda de
energia, movida por moinhos de vento. Paramos num
mirante apropriado para uma visão privilegiada do
nevoeiro, digo dos moinhos. O
vento era o único barulho que escutávamos, ritimado por um ou
outro mugido de vaca. Ficamos em silêncio
observando a paisagem bucólica por exatamente 1
minuto. Os moinhos e as vacas de repente começaram a
tremer na nossa frente, denunciando que estavamos
congelando de frio. Buscamos abrigo dentro do
carro, cujo motor ainda quente esquentou até as entranhas de nossas
almas. Essa área também foi atingida pelo ciclone
de Innisfail, e foram registrados ventos de 295
Km/h. Fiquei imaginando qual a rotação que esses
moinhos chegaram durante o ciclone, ou se existe
algum mecanismo para travá-los numa intempérie.
Será que eles poderiam ter decolado e pousado no
Brasil?
Agora
a estrada estava muito boa
e anão tinha mais aquele vendaval. A cada
quilômetro
a paisagem ía mudando, pois afinal estávamos
deixando a faixa verde do litoral e entrando no
"Outback" Australiano. A terra fica mais
vermelha, e cupimzeiros enormes podem ser vistos
em ambos os lados da estrada. Mas com certeza não iria
dar para chegar a Undara nesse dia, devido a baixa
quilometragem que conseguimos
até
o momento. A Celia falou que no mapa havia um
Caravan Park num local chamado Innot Hot
Springs,
famoso por causa das fontes minerais de águas quentes.
O ponto que vimos no mapa estava marcado como uma cidade,
mas ao chegar constatamos tratar-se somente de um
único estabelecimento, que era o Caravan Park. O
dito dobrava como
posto de gasolina, loja para os fazendeiros
e local de parada para caminhoneiros. Uma
verdadeira cidade! Resolvemos
que seria lá mesmo que iríamos pernoitar, decisão mais fácil que já tomamos durante
a viagem,
pelo simples fato de não haver outra opção.
O
Caravan Park
não estava cheio, e logo nos instalamos. Fui ao
banheiro, e tomei um susto. Nunca tinha visto um
banheiro tão sujo. Todos os banheiros na
Austrália
mesmo públicos são limpos, e alguns tão limpos que
dá até pra comer no chão, mas esse estava medonho.
A Celia falou o mesmo do banheiro das mulheres.
Soubemos depois que a imundisse desse banheiro já
criou fama na Austrália, e mesmo com
administração
nova, o dito continua o mesmo. Nesse Caravan Park
só encontramos viajantes Australianos, e não
mais turistas de várias partes do mundo viajando
a Austrália. A maioria era de Grey Nomads puro
sangue, como um
casal que está na estrada há dez anos, o outro
há 3
anos e meio. Essa Caravans que vimos, não são
tão luxuosas
como as do pessoal de fim de semana, mas primam
por ter tudo necessário. Tudo é pratico e tudo tem o seu
lugar, coisa feita para morar mesmo. Umas tinham
até mesmo antenas
para recepção de TV e Internet por satélite,
coisa que sabemos custar mais de A$ 3000 por ano, só para manter a conexão, e é o nosso sonho de
consumo futuro. Nosso
carro parecia um filhote perto daquelas caravans,
e nós parecíamos bebês engatinhando em assuntos de
viagens comparado com eles. Uma das coisas que
eles nos ensinaram, foi como lavar roupa enquanto
se viaja sem o menor esforço. É o seguinte:
Você
pega um balde grande de plástico com uma tampa que
vede bem, e põe a roupa, detergente, e a água
dentro do balde, e depois tampa e põe
dentro do carro. Por causa do sacolejo da estrada,
quando você chegar no destino a roupa vai estar
tão lavada quanto numa máquina de lavar. Depois
basta
tirar o sabão, torcer e botar pra secar.
Passamos
o resto da tarde
relaxando imersos nas piscinas de águas guente
naturais, e conversando com nossos vizinhos de
caravan sobre viagens e lugares da Austrália. O
jantar foi peixe com purê de batatas e
legumes. Quando escureceu, o céu ficou totalmente
estrelado, e era fácil ver estrelas cadentes e
satélites em órbita. Amanhã iríamos finalmente
chegar em Undara.
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Subindo,
subindo, subindo
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Fazenda
de criação de peixes
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Nossa
Van parecia um carro de brinquedo perto
das Caravans
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| Travessia
de Cangurus de árvores |
10
anos na estrada. Eles rebocam um carro 4x4
atrás
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Relaxando
nas picinas naturais
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Innot Hot
Springs - Undara Lava Tubes - 112
Km
O
dia raiou espetacular
e o contraste da Savana com o céu azul e a terra
vermelha estava muito bonito. Antes do café
passamos cerca de 1 hora nas piscinas naturais. A
mais quente tem 44 graus, e as
outras 38, 36, e 32. Ficamos na de 38 porque a de
44 estava muito quente para nós. Chegaram
outras cinco pessoas, todas de Adelaide, e
conversamos por cerca de 20 minutos para depois
retornarmos para a Van. A Celia
foi entrevistar um casal que há 3 anos e meio
está na estrada. Enquanto isso eu preparei duas bacias de
cereal com banana e suco de laranja para o café
da manhã. Na noite
passada fizemos reserva para o tour das 13:00
horas
nos tubos de lava de Undara, pois nos disseram que eles só
aceitam reservas com 24 horas de antecedência. Como eram
só 112 quilômetros até o lugar, ficamos
fazendo hora e batendo papo. O casal nos disse
que se não saíssemos logo, não íamos chegar à
tempo. Não entendi no momento, pois ainda eram
10:00 da manhã e em 3 horas eu faria uns 250 Km,
não 112. Será que eles queriam se ver livres da gente?
No
início tudo
estava bem com a estrada um tapete, e a paisagem
espetacular. O asfalto era meio vermelho, e quase não haviam veículos na
estrada. Estava
adorando aquela sensação de viajar no Outback. A temperatura
era de 24
graus, e tudo estava perfeito demais. Ainda por
cima estávamos indo conhecer os famosos tubos de
lava de Undara. Esses tubos foram
formados à cerca de 200.000 anos durante
uma violenta erupção vulcânica, e são
considerados os maiores do mundo. Tubos de lava
são formados quando a lava despejada por um
Vulcão
viaja ladeira abaixo percorrendo longas
distâncias. Quando a lava entra em contato com o ar, a superfície
solidifica, mas dentro continua líquida e fluida.
É
como se fosse uma mangueira de água aberta, e de
repente corta-se a água. Depois que a erupção
terminou, o tubo esvaziou e ficou só um túnel vazio. O de Undara chega a ter mais de
100 Km de comprimento e quase 20 metros de
diâmetro em alguns pontos. Muitas partes já
desabaram ou foram erodidas, mas sobraram muitos tubos que podem ser visitados.
Como o velho ditado..."Tudo o que é bom dura
pouco", foi o que
aconteceu. Em pouco tempo o céu começou a
nublar, e a estrada
virou uma única trilha de asfalto. Se um carro
viesse da direção oposta, ambos
teriam que colocar uma roda na lama. Pensei que fosse um trecho em obras, mas a
coisa ficou assim pelos próximos 80 Km. A velocidade caiu para 60 Km/h, pois
fiquei com medo de quebrar o carro no meio do
nada. Agora tínhamos entendido porque os nossos
amigos do Caravan Park falaram para saírmos mais cedo. Resolvi pisar fundo de forma que o carro
passasse voando por cima dos buracos, e voilá, deu
certo. Voltamos aos 110 Km/h mas tínhamos que
diminuir nas curvas ou quando vinha algum carro do
lado oposto. Nunca vi 112 Km levarem tanto tempo
para serem percorridos, e olha que não estava
chovendo.
Chegamos
no trevo para
Undara, e entramos no acesso de 19 Km que nos
levaria ao Caravan Park do local. Ao final do
primeiro quilômetro, o que restava de asfalto
acabou. Os
primeiros 4 quilômetros foram tranquilos, mas
depois a estrada foi deteriorando, até se
tornar um mar de ondas, com a Van parecendo uma
britadeira. Tive que reduzir para 20 Km/h, e
algumas vezes até mesmo parar por causa de alguns
buracos profundos. Nesse rítimo
corríamos sério risco de perder a hora do tour,
mas a sorte virou pro nosso lado. Um micro
ônibus da companhia que opera o tour nos
ultrapassou, e isso foi nossa salvação. Passei
à seguí-lo de perto, mesmo comendo poeira, pois
o cara parecia conhecer cada palmo de pista. O
ônibus parecia uma cobra, indo da direita
para a esquerda, e nós atrás. Acelerava
quando tinha um trecho bom e reduzia na
buraqueira. Minha adrenalina estava a mil por seguí-lo
tão de perto, e vi que ele não tirava o olho de
nós através do retrovisor. Algumas vezes ele
beliscava várias vezes o freio para nos alertar
que vinha coisa pela frente. Com certeza ele sabia
que estavamos atrasados para o tour, e estava nos
dando uma força. Chegamos 30 minutos antes do tour
sair, e fomos fazer o check-in no Caravan Park.
Deixamos o carro
já no "powered site" que dormiríamos,
e em seguida pegamos as
cameras e os vouchers, e seguimos apressados para
o ponto de encontro do tour.
Fomos
levados
até
a entrada dos tubos dentro de outro micro ônibus da
companhia, com outros 13 turistas. O motorista que
era o guía, não parava de falar besteira, e
começou com aquelas baboseiras que detesto, do tipo,
"De onde voce é ?". "Quem quer contar uma
piada?". "Se apresentem uns aos
outros". Eu virei a cara para a janela e vi um Canguru cinza
escuro bem grande que nunca tinha visto antes, mas
não deu tempo de fotografa-lo, pois o motorista
nem percebeu o Canguru, e não reduziu a
velocidade. O bicho talvez tivesse uns
2 metros de altura e era bem forte e encorpado, com certeza um
macho. Chegamos na entrada dos
tubos e o guía deu algumas explicações sobre os
tipos de rochas do lugar, e em seguida descemos a
trilha de acesso para caverna. O cara era do tipo metido a
engraçado, daqueles que faz graça com cara
fechada, só que não havia a menor graça nas
coisas que ele dizia, e
as poucas pessoas que riam, provavelmente o faziam
por educação. O sujeito ainda por cima falava
para dentro, e as explicações que ele dava não
eram detalhadas e muito menos acadêmicas. Eu fiz
várias perguntas principalmente sobre a
descoberta de 35 novas
espécies de invertebrados que foram encontradas
dentro dos tubos. "What Invertebrates do you
mean?...Ele retrucou". Me deu vontade de
responder que se ele não sabia o que eram
invertebrados, eu estava falando com um.
Esses
Invertebrados jamais
foram vistos antes em qualquer outra caverna ou
lugar no mundo, e vivem basicamente de gás
carbônico. A umidade e fungos dentro da caverna
cria uma concentração de CO2 duzentas vezes
maior que na superfície, e é extremamente
tóxica para a maioria das espécies, inclusive o
homem. Por causa disso, não se pode entrar muito
fundo nos tubos, e somente pesquisadores com
oxigênio conseguiram ir mais além. Mesmo assim,
mas de 90% da extensão total dos tubos ainda não
foi explorada. Os invertebrados dalí e alguns
vegetais alimentam-se exclusivamente de fezes de
morcego, fungos, e CO2, o que intrigou a
comunidade científica internacional. As
infiltrações por todo o teto da caverna fazem
com que literalmente chova lá dentro, com umidade
de 98%, e temperatura de 22 graus. O ar é
extremamente pesado, abafado, e fétido.
Definitivamente um lugar não muito prazeiroso de
se ficar.
Eu
nunca vi
um guía tão ruim na minha vida. O
sujeito falava e bocejava, e bocejava
alto. Parecia que a qualquer momento ia deitar
no chão e dormir. Cheguei a pensar que ele
estivesse seriamente afetado por CO2. Ainda por
cima mantinha a lanterna apontada para baixo ou
desligada. Ninguém avisou sobre
trazer lanterna, e sem lanterna é completamente
breu lá dentro. Só o guía tinha uma. De vez em
quando ele mostrava morcegos no teto, ou desenhos
nas paredes, sempre de forma rápida. Quando minha
retina se acostumava com a luz e meus olhos íam focar,
pronto, ele já tinha apontado a lanterna para outra
direção. Quase pulei no pescoço dele quando
apontou para umas pedras e começou com aquela
palhaçada de,,, "Isso é um urso ou a
cabeça de um cachorro?". Isso é sua mãe, me deu vontade de falar. Para que
eu não cometesse um tubicídio com o guía, tive
que me conter. Em seguida o guía nos levou para outro tubo diferente, e
finalmente ele deu algumas explicações sobre uma
varas de metal que iam da base ao teto do tubo.
Algums estavam retas, outras envergadas. Essas
varas eram para medir a deformação do tubo. Se
estivessem muito envergadas, é porque o teto cedeu e
pode desmoronar. Passei a bombardeá-lo com
perguntas, e ele respondeu algumas, mas depois se
voltou para o grupo e disse..." Aqueles que
estiverem interessados em detalhes técnicos,
temos um livro feito por uma vulcanóloga que
está à venda na recepção por A$ 39. Eu só
não mandei-o ao devido lugar,
porque minha raiva foi tamanha, que me afastei do
grupo e passei a usar o flash da minha camera
digital como lanterna, e com sorte saíria uma
foto prestável.. Alguns dados que escrevi aqui foram pesquisados na Internet, porque
senão eu não saberia nada.
Saimos
dos tubos e
chovia, e isso somado a raiva que eu estava do
guía acabou com o encanto do lugar. Estava
pensando em fazer um passeio mais completo no dia
seguinte, pois eles tem 3 passeios diferentes, O
que fizemos custa A$ 40 para escutar por duas
horas alguém falando besteira, e inclui visita à
dois
tubos. O outro tour dura meio dia, e o outro dura um
dia inteiro, onde visita-se o vulcão que
gerou os tubos, e
entra-se em tubos diferentes. Custa A$145 por
cabeça. De qualquer forma
decidimos ir embora no dia seguinte, e passamos o
restante da tarde no Caravan Park. Fomos ver uns
Cangurus marrons que estavam nas imediações da
Van, e depois armamos
o toldinho azul, pois tinha começado a garoar.
Jantamos ravioli de espinafre ao molho branco, e
fomos dormir cedo. Lá pelas 11 da noite, acordei
com o toldo batendo no carro, e tive que ir lá
fora ajeitá-lo. Chovia e ventava forte, e o
reparo durou uns 5 minutos. Voltei ensopado para a cama,
e depois de me enchugar bem, voltei para debaixo
do cobertor. Mais uma vez, tudo o que desejávamos
era o Sol, um dia de Sol, com o guía sentado dentro da
cratera do vulcão um minuto antes da explosão.
Nota:
Esses tubos fazem parte de um Parque Nacional, mas
ficam em terras de uma família que criava gado
lá
desde 1840. Eles entraram num acordo com o
departamento de parques nacionais, no qual cederiam
as terras mas seriam os únicos autorizados à explorar o turismo nos tubos,
para com isso proteger
desavisados de morrer por causa do CO2.
Construíram uma
excelente infra estrutura com muitas facilidades,
incluindo bomba de gasolina, acomodações de luxo
em vagões de trem, e muitas coisas mais. Por isso
não é possível explorar os tubos por conta
própria. Tem-se que pagar, e ir com
um guía deles num dos tours que oferecem.
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Nosso
fantástico Guia
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É
um Cachorro? É um urso?
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O
bar também fica num vagão
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| Cangurua
com filhote na bolsa |
Acomodações
em vagões de trem |
E
o restaurante num outro. |
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